No domingo, 4 de outubro, as urnas reduziram o Brasil a duas alternativas. Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno à frente de Luiz Inácio Lula da Silva, com uma diferença de menos de dois pontos percentuais. No dia 25 de outubro, um dos dois será eleito presidente da República.
A partir daqui, a preferência pessoal de cada analista perde relevância. O que cada um pensava sobre direita e esquerda já foi dito, e votado, no primeiro turno. Restam dois projetos antagônicos, e a pergunta que interessa ao eleitor tornou-se mais fria: se um deles vencer, o que o país ganha e o que passa a correr risco? Discutir se Lula é bom ou ruim, ou se Flávio está preparado, virou exercício estéril. Importa medir as consequências concretas de cada vitória.
Este texto não pretende esgotar o tema. Cada ponto a seguir mereceria um artigo próprio. A proposta é um balanço resumido, com os ativos e os passivos de cada candidato colocados lado a lado, sem torcida e sem especulação sobre intenções.
Tampouco interessa confrontar promessas de campanha com a realidade. Toda campanha promete mais do que qualquer governo consegue cumprir, e promessa eleitoral gera, quase sempre, frustração. O critério aqui é outro e mais exigente: a capacidade efetiva de cada candidato de entregar um Brasil melhor em 2030. Essa capacidade se mede por dois fatores que raramente aparecem juntos, a força política para aprovar e a experiência para executar.

Flávio e a governabilidade que nenhum presidente teve
Desde a redemocratização, o Brasil elegeu mais presidentes de esquerda e centro-esquerda do que de direita, e o Congresso permaneceu, quase sempre, à direita do Planalto. Os presidentes de direita tiveram trajetórias atribuladas. Fernando Collor sofreu impeachment. Michel Temer chegou ao cargo como consequência de outro impeachment. Jair Bolsonaro, eleito em 2018, precisou entregar ao Centrão parte do governo para sobreviver no Congresso.
O cenário de 2027 tem outra configuração. O PL elegeu 121 deputados, a maior bancada da Câmara, e terá 28 cadeiras no Senado, onde nenhuma outra legenda deve alcançar um terço desse tamanho. Somadas às demais bancadas de direita, essas forças dariam a um eventual governo Flávio a convergência entre Executivo e Legislativo mais ampla desde 1988.
Este é o principal ativo de Flávio. Sérgio Abranches cunhou a expressão presidencialismo de coalizão para descrever um sistema em que o presidente governa negociando, a cada votação, com um Congresso que não controla. Nesse arranjo, as reformas estruturais avançaram fatiadas e desidratadas pelo caminho. Um presidente com base própria teria condições de aprovar mudanças que o país adia há décadas.
A ressalva é aritmética. A maioria absoluta exige 257 deputados e 41 senadores, e o PL sozinho não chega lá. Flávio continuaria dependendo de partidos de centro, com um ponto de partida para a negociação mais favorável do que o de qualquer presidente recente.
Força para aprovar, sem experiência para executar
O passivo mais pesado de Flávio é a falta de experiência administrativa. Sua trajetória inteira se deu no Legislativo, como deputado estadual no Rio de Janeiro e depois como senador. Ele nunca comandou uma prefeitura, um governo estadual, um ministério ou qualquer estrutura de gestão. A Presidência seria seu primeiro cargo executivo, e logo o mais complexo do país.
A distinção importa. Aprovar uma reforma no Congresso é uma tarefa; transformá-la em política pública funcionando, com orçamento, equipe, regulamentação e coordenação entre ministérios, é outra. Governabilidade garante a primeira etapa. A segunda depende de quem conhece a máquina pública por dentro, e é nela que muitos governos com maioria confortável fracassaram.
Outro passivo aparece nas contas públicas. Ao longo dos últimos quatro anos, Flávio e seus aliados prometeram um choque fiscal capaz de arrumar as finanças do Estado, bandeira que mobilizou a Faria Lima. Nas conversas com os interlocutores econômicos da campanha, o choque desaparece. Os programas sociais sofreriam ajustes pontuais. Os benefícios concedidos à indústria e ao setor empresarial ficariam intocados, assim como as isenções do mercado financeiro. A aposta recai sobre a melhoria de gestão, com economia estimada entre R$ 120 bilhões e R$ 200 bilhões, valor modesto diante do ajuste que o próprio mercado cobrou durante todo o governo Lula.
Pesa ainda a situação judicial do candidato. Flávio é investigado em 11 inquéritos pela Polícia Federal. A presunção de inocência vale para ele como para qualquer cidadão. Um presidente sob investigação, ainda assim, governa sob pressão permanente e com a agenda constantemente capturada pela própria defesa.
Reeleição, Supremo e o risco institucional
Em março, Flávio protocolou no Senado uma proposta de emenda constitucional que proíbe a reeleição para presidente, e sua campanha avalia a adoção de mandato único de cinco anos. A agenda é positiva. A reeleição introduzida em 1997 transformou o primeiro mandato em campanha permanente, e o fim dela é defendido por atores de diferentes partidos.
O problema está na data de vigência. Uma mudança que valesse a partir do próximo mandato, para qualquer eleito, seria legítima. Um presidente eleito para quatro anos que aprova a extensão do próprio mandato para cinco pratica um golpe, ainda que revestido de emenda constitucional. O eleitor de 2026 escolhe um presidente para quatro anos, e nenhum ajuste posterior pode alterar esse contrato em benefício de quem o assinou.
O segundo risco envolve o Judiciário. Começa a circular no mercado a expectativa de uma reforma do Judiciário em um eventual governo Flávio. Reformar o Judiciário é uma necessidade reconhecida há anos. A versão discutida no entorno do candidato, segundo interlocutores próximos à campanha, prevê o esvaziamento dos poderes do Supremo Tribunal Federal. Com Executivo e Legislativo alinhados, dois Poderes se uniriam para reduzir um terceiro, em afronta direta à separação de Poderes, cláusula pétrea da Constituição. Steven Levitsky e Daniel Ziblatt descrevem esse movimento como a captura dos árbitros: a democracia perde o juiz encarregado de arbitrar a disputa. Este espaço já discutiu, em Presidencialismo de toga, os riscos da politicização da Corte. Esvaziá-la por acordo entre os outros dois Poderes levaria o problema a outro patamar.
Lula e a estabilidade sem maioria
Lula tem exatamente o que falta ao adversário. São três mandatos na Presidência e a capacidade, testada na prática, de colocar a máquina pública para funcionar e entregar resultados, nem sempre tudo o que poderia, mas com o conhecimento de quem já governou o país em cenários muito distintos. Soma-se a isso a previsibilidade institucional. Não há, no horizonte de um quarto mandato, hipótese de ruptura constitucional, extensão de mandato ou confronto deliberado com o Supremo. Os programas sociais seguiriam, e o compromisso fiscal permaneceria, menos agressivo do que o mercado deseja e compatível com a estabilidade social.
O passivo está no Congresso. A legislatura que toma posse em fevereiro de 2027 será a mais adversa que Lula já enfrentou, com a direita dona das maiores bancadas nas duas Casas e um plenário ao mesmo tempo conservador e fragmentado. A capacidade de negociação, outro ativo reconhecido do presidente, encontraria aqui seu limite. Lula sempre negociou com o Centrão, um bloco pragmático que trocava apoio por espaço no governo. O Congresso eleito em 2026 reduziu esse protagonismo. No Senado, o PSD caiu de 14 para cinco cadeiras, enquanto o PL avançou sobre o espaço que antes pertencia aos partidos de centro. Com menos interlocutores dispostos a negociar e mais parlamentares alinhados à oposição por convicção, o custo de cada votação subiria e o resultado ficaria incerto.
Lula precisaria ainda renovar profundamente sua equipe, no governo propriamente dito e para além do time de campanha.
Há também o peso das promessas de 2022. Lula afirmou que não disputaria um quarto mandato e acabou disputando. Prometeu uma frente ampla para garantir a governabilidade, e ela não se realizou. Os aliados daquela eleição receberam espaço, sem a divisão real de poder que se esperava. Parte considerável da rejeição que o governo enfrenta hoje decorre dessa frustração.
O caso de Geraldo Alckmin ilustra o problema. Esperava-se que Lula preparasse o terreno para que o vice disputasse esta eleição. Alckmin tem dificuldade de comunicação, e seus resultados eleitorais fora de São Paulo foram fracos. Ainda assim, receberia boa parte dos votos da esquerda e conseguiria atrair o centro e a centro-direita, o que tornaria a disputa ainda mais favorável ao campo governista. Alckmin foi enfraquecido ao longo de quatro anos, e só agora se percebe uma tentativa de resgate.
A única saída para Lula seria convencer o PT de que o partido perdeu a preponderância de outros tempos e de que precisa de uma frente ampla de verdade, com o poder efetivamente dividido, para que um candidato moderado possa disputar as próximas eleições com chance real. Do jeito que está, o PT caminha para minguar. Uma derrota agora favoreceria a permanência de Flávio ou de outro nome da direita por mais de um ciclo, sobretudo se a reeleição for preservada.
O Brasil no mundo de 2030
O mundo de 2030 será moldado pela inteligência artificial, pela transição energética e pela competição entre Estados Unidos e China. O Brasil chega a esse cenário com vantagens concretas em alimentos, energia e recursos naturais, e com a tarefa de convertê-las em inovação, produtividade e acesso a novos mercados.
Os dois candidatos propõem caminhos distintos para essa conversão. Lula defende relações com parceiros comerciais diversos e a continuidade das políticas ambientais. Flávio propõe maior aproximação com os Estados Unidos, simplificação regulatória e estímulo ao investimento privado.
Nos dois cenários, há mais indefinições do que certezas. Com Flávio, a aproximação com os Estados Unidos é dada como certa. Seu efeito, porém, depende do conteúdo. Ninguém sabe se ela ficará no discurso ideológico de Eduardo Bolsonaro ou se produzirá medidas concretas, nem se as tarifas impostas por Washington aos produtos brasileiros sobreviveriam a um governo alinhado. O próprio Itamaraty avalia que as tarifas foram politizadas e miram a eleição brasileira.
Com Lula, a incerteza tem sinal trocado. A relação pessoal com Donald Trump melhorou, e um telefonema em agosto reabriu o diálogo sobre as tarifas. Não há garantia de que a boa convivência se converta em resultados práticos.
Fora do eixo americano, o quadro fica mais nítido. A relação menos dependente de Washington empurrou o governo Lula para a abertura de novos mercados, e essa diversificação tende a continuar. Com Flávio, a expectativa de alinhamento pleno aos Estados Unidos reduz o incentivo para buscar parceiros alternativos, o que concentra o risco comercial em um único destino.
Os resultados dependerão das negociações internacionais e das condições da economia global, fatores que nenhum dos dois controla. O desafio do próximo governo será aproveitar as oportunidades da disputa entre as grandes potências sem sacrificar a diversidade das relações comerciais brasileiras.
Um último ponto pesa igualmente nos dois cenários. O próximo presidente indicará ministros para as vagas que se abrirão no Supremo, e as indicações passarão por um Senado mais conservador do que o atual. Como este espaço analisou em Supremo sem Supremo, a composição da Corte nos próximos anos está diretamente amarrada ao resultado das urnas.
A democracia entre uma eleição e outra
Ninguém pode afirmar hoje qual dos dois fará o melhor governo. Qualquer previsão nesse sentido seria exercício de futurologia. Experiência, propostas e apoio parlamentar pesam, e nenhum desses fatores, isolado, garante resultado.
Uma conclusão vale qualquer que seja o vencedor: o Brasil não pode deixar seu futuro exclusivamente nas mãos de quem governa. A baixa confiança da população no Congresso e no Judiciário revela um problema institucional que precisa ser enfrentado. O peso dos interesses partidários e corporativos nas decisões políticas e as controvérsias em torno da atuação do STF tornam ainda mais necessário exigir transparência, respeito às competências de cada Poder e compromisso com o interesse público.
Por isso, a participação da sociedade civil precisa continuar depois do dia da eleição. Empresas, universidades, imprensa, organizações sociais e cidadãos têm a tarefa de acompanhar as decisões públicas, fiscalizar os governantes e cobrar resultados ao longo dos quatro anos de mandato. Um país depende de bons governantes, de instituições que funcionem e de uma sociedade que participe de forma permanente de sua vida democrática.
Em 2026, os brasileiros escolhem quem vai governar. Até 2030, caberá à sociedade acompanhar, fiscalizar e cobrar o cumprimento das responsabilidades assumidas. As urnas encerram a eleição; é entre uma eleição e outra que a democracia precisa mostrar seus resultados.
