Quem vencer as eleições de outubro receberá o poder de governar. Quem perder terá diante de si uma oportunidade igualmente importante: conquistar a confiança de uma sociedade profundamente dividida e exercer influência sobre os rumos do país, mesmo fora do governo.

O cientista político Adam Przeworski definiu a democracia como um sistema no qual partidos perdem eleições. A simplicidade da afirmação revela uma condição essencial do regime democrático: os derrotados precisam aceitar os resultados e continuar participando da vida política. Perder faz parte da democracia. O desafio começa no dia seguinte.

O Brasil chegará a 2027 marcado pelas divisões políticas dos últimos anos. Em 2022, Lula venceu com 50,9% dos votos válidos, equivalentes a 38,6% do eleitorado total. Bolsonaro recebeu aproximadamente 37,2%. Cerca de um quarto dos eleitores se absteve ou votou em branco ou nulo.

Esses números revelam a distância entre a maioria necessária para vencer uma eleição e o apoio recebido do conjunto dos eleitores. Mais de 60% do eleitorado não votou no candidato vencedor. Essa parcela inclui eleitores do adversário, ausentes e aqueles que anularam ou deixaram seus votos em branco. Suas motivações são distintas e representam um espaço político que nenhum governante pode ignorar.

As pesquisas de outubro de 2026 acrescentam outro elemento. Lula e Flávio Bolsonaro apresentam índices de rejeição próximos de metade do eleitorado. O próximo presidente chegará ao poder diante de milhões de brasileiros que rejeitam sua liderança. O derrotado também terá de reconhecer a resistência significativa à sua candidatura. A vitória determinará quem governa, sem eliminar a divisão política da sociedade.

Oportunidade e desafio da oposição

A oposição encontrará nesse cenário uma oportunidade singular. Contará com uma expressiva base eleitoral e poderá conquistar a confiança de cidadãos que não se identificam plenamente com nenhum dos lados. Sua influência poderá ultrapassar sua representação parlamentar, sustentada pela qualidade das propostas, pela seriedade da fiscalização e pela capacidade de dialogar com a sociedade.

O governo enfrentará as responsabilidades da administração pública. Precisará executar seu programa, administrar recursos, negociar com o Congresso e responder diariamente pelas consequências de suas decisões. A vitória lhe confere legitimidade para governar e a obrigação de representar todos os brasileiros.

O poder político não se esgota no controle do governo ou na quantidade de votos no Congresso. A capacidade de formular propostas, mobilizar a sociedade e influenciar decisões públicas também constitui uma forma de poder.

A responsabilidade de construir alternativas

A oposição dispõe de uma vantagem frequentemente desperdiçada. Livre das urgências da gestão cotidiana, poderá dedicar maior atenção aos problemas estruturais do país, avaliar políticas públicas, identificar falhas e construir alternativas. Saber utilizar essa liberdade talvez seja seu maior desafio.

Reconhecer decisões corretas do governo fortalece a autoridade das críticas. Demonstra independência de julgamento, consistência e maturidade. Quando critica indiscriminadamente, a oposição se torna previsível e enfraquece sua capacidade de convencer.

Uma lição norte-americana

Em 2000, após uma das eleições presidenciais mais disputadas dos Estados Unidos, Al Gore reconheceu a vitória de George W. Bush, apesar de discordar da decisão da Suprema Corte que encerrou a controvérsia eleitoral. Em seu discurso, afirmou que a decepção com a derrota deveria ser superada pelo amor ao país e se comprometeu a contribuir para que o novo presidente conseguisse reunir os americanos.

Gore havia utilizado os instrumentos legais para contestar o resultado. Ao aceitar a decisão definitiva, preservou suas convicções políticas sem transformar a disputa eleitoral em uma ruptura institucional.

O episódio carrega uma lição especialmente relevante para o Brasil de 2027.

Fiscalização construtiva versus oposição destrutiva

A oposição tem todo o direito de trabalhar pela derrota eleitoral do governo. O problema começa quando passa a desejar o fracasso de suas políticas, mesmo sabendo que as consequências serão suportadas pela população. Trabalhar para substituir um governante faz parte da democracia. Criar obstáculos deliberados ao progresso do país compromete sua capacidade de produzir resultados.

Movida pelo ressentimento, a disputa política pode aprofundar divisões sociais e estimular grupos fechados em torno de identidades partidárias e interesses particulares. A indignação permanente mantém mobilizados os apoiadores mais fiéis, mas afasta aqueles que procuram soluções para os problemas nacionais.

Fiscalizar, denunciar irregularidades, cobrar transparência, enfrentar decisões equivocadas e apresentar alternativas são funções essenciais da oposição. Também é preciso reconhecer que uma política pública bem-sucedida pode beneficiar milhões de brasileiros, independentemente de quem a tenha proposto.

Educação, segurança pública, equilíbrio fiscal, infraestrutura e produtividade exigem compromissos que ultrapassam mandatos presidenciais. A oposição poderá contribuir apresentando metas, acompanhando resultados e defendendo a continuidade das iniciativas que funcionem.

O eleitor também terá responsabilidade nesse processo. A qualidade da oposição deve ser avaliada pela consistência de suas propostas e pela seriedade de sua fiscalização. A intensidade dos ataques ao presidente pouco revela sobre a capacidade de administrar o país.

Credibilidade e compromisso de longo prazo

A oposição de 2027 terá diante de si uma oportunidade rara. Poderá transformar sua expressiva base eleitoral em uma força capaz de influenciar os rumos do país e demonstrar competência para exercer o poder no futuro. Seu maior ativo poderá surgir justamente entre aqueles que rejeitaram seu candidato, mas venham a reconhecer a seriedade de suas propostas e a responsabilidade de sua atuação.

A credibilidade conquistada por propostas consistentes, fiscalização rigorosa e reconhecimento dos acertos do adversário poderá ser mais duradoura do que a popularidade obtida pela indignação permanente.

A oposição deverá ser rigorosa nos princípios, intransigente na transparência e magnânima na superação do ódio.

O Brasil não pode perder junto com o derrotado.

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