O cancelamento do último debate presidencial antes do primeiro turno expõe uma campanha que trocou o convencimento pela mobilização. Candidatos, tribunais e a própria emissora contribuíram para um mesmo resultado: o eleitor indeciso ficou sem palco.
Na noite de 1º de outubro, a três dias do primeiro turno, a TV Globo exibiu uma novela no horário reservado ao último debate presidencial. Enquanto os púlpitos ficavam vazios no estúdio, Lula dava entrevista a um podcast e Flávio Bolsonaro fazia uma transmissão nas redes, cada um diante de uma plateia que, em sua maior parte, já o havia escolhido.
Desde 2002, a emissora realizava esse debate em todas as eleições presidenciais. A sequência se interrompeu por uma combinação que a história eleitoral brasileira ainda não havia registrado. Os dois líderes das pesquisas recusaram o confronto, decisões judiciais de última hora alteraram as regras do programa e a própria Globo preferiu cancelar a transmissão.
Debates já foram esvaziados ou cancelados antes, sempre por uma causa isolada. O de 2026 reúne várias delas ao mesmo tempo e revela uma mudança na forma de fazer campanha no Brasil, e para pior.
A campanha que desistiu de convencer
Lula e Flávio não compareceram a nenhum debate nesta eleição. As justificativas variam e a lógica é a mesma. O debate é o único momento da campanha em que o candidato perde o controle sobre o próprio discurso. Ele enfrenta o adversário, responde a perguntas que não escolheu e se expõe ao eleitor que ainda não decidiu o voto. Para quem lidera as pesquisas, esse risco passou a parecer dispensável. O próprio Lula expôs o raciocínio ao classificar os debates como infrutíferos e dominados pela busca da "pegadinha", e ao dizer que preferiria participar apenas no segundo turno. A crítica ao formato tem fundamento. Os debates brasileiros viraram fábricas de cortes para as redes sociais, e o candidato que comparece arrisca entregar ao adversário o vídeo que circulará pelo resto da semana.
O problema está no que se coloca no lugar. O podcast e a live oferecem ao candidato um ambiente previsível, um entrevistador conhecido e uma audiência formada, em boa parte, por quem já concorda com ele. A campanha passa a operar como gestão de base, voltada a mobilizar, manter e reforçar apoios já conquistados. Convencer o indeciso, função original do confronto público, saiu da estratégia.
O cientista político Bernard Manin descreveu a passagem da democracia de partidos para o que chamou de democracia de público, em que a relação entre candidato e eleitor passa a ser mediada pelos meios de comunicação de massa e o político se dirige a um eleitorado amplo e flutuante. A televisão foi o palco dessa forma de representação, e o debate, seu ritual mais visível. A eleição de 2026 mostra a fragmentação desse palco em milhares de plateias segmentadas. Cass Sunstein advertiu, em seus estudos sobre internet e democracia, que ambientes de informação personalizados tendem a produzir câmaras de eco, nas quais grupos ouvem apenas versões ampliadas das próprias convicções. A campanha deste ano adotou essa lógica como método. Cada candidato fala para a sua bolha, e o eleitor que está no meio do caminho escuta apenas o ruído das duas.
Robert Dahl incluía entre as condições de uma democracia o que chamava de compreensão esclarecida, a oportunidade real de o cidadão conhecer as alternativas em disputa e suas consequências. O eleitor que chega às urnas sem ter visto os dois principais candidatos frente a frente uma única vez vota com menos informação comparativa do que as gerações anteriores tiveram, ainda que viva cercado de conteúdo político.
A liminar como estratégia de campanha
Se a televisão perdeu centralidade, o Judiciário ganhou. Em menos de 72 horas, decisões do TSE e do STF mudaram quem participaria do debate e como a ausência de Lula poderia ser mostrada, derrubando inclusive uma regra que o próprio PT havia assinado. Juristas divergem sobre o mérito de cada uma delas.
O dado relevante para esta análise é o padrão. As campanhas passaram a tratar o tribunal como instrumento de disputa tão importante quanto o palanque. A coligação de Lula recorreu à Justiça para controlar como sua ausência seria mostrada, partidos menores recorreram para garantir vaga e Flávio converteu as decisões em justificativa para desistir. Entre os candidatos que ficaram sem palco, espalhou-se a queixa de que, nesta eleição, o tribunal decide mais do que o eleitor. A queixa é hiperbólica, mas descreve uma percepção crescente. Em "Presidencialismo de toga" e em "Régua e o relator", este espaço já apontou o custo de uma Justiça que se converte em arena da disputa política. O episódio da Globo materializou esse custo diante de milhões de telespectadores. Decisões monocráticas, contraditórias entre si e tomadas às vésperas do programa definiram quem subiria ao palco antes que o eleitor pudesse decidir quem queria ouvir.
Steven Levitsky e Daniel Ziblatt mostram que as democracias se sustentam menos pelas leis escritas do que por normas de reserva, a disposição dos atores de não usar até o limite as prerrogativas que possuem. Comparecer a debates sempre foi, no Brasil, uma norma de convivência, sem qualquer previsão legal que obrigue o candidato. Recorrer ao Judiciário também é direito de toda campanha. Quando todos exercem seus direitos sem contenção, o resultado agregado é a corrosão da instituição que dependia justamente dessa contenção.
A emissora que confirmou a tese
A Globo justificou o cancelamento pela insegurança jurídica, e entidades do setor falaram em agressão à liberdade de imprensa. A crítica tem fundamento, e a emissora tinha razão ao denunciar mudanças de regra a poucas horas do ar.
A escolha de cancelar merece o mesmo escrutínio dirigido às decisões que a motivaram. Havia candidatos dispostos a debater. A Globo poderia ter realizado o programa com os candidatos presentes, informado as ausências dentro dos limites impostos pela liminar e registrado seu protesto no ar. Optou por substituir o debate pela novela. Com isso, comunicou ao eleitor que um debate sem os dois líderes não justifica o horário nobre, exatamente a premissa sobre a qual Lula e Flávio construíram suas estratégias de ausência. Ao cancelar, a emissora deu razão a quem preferiu o podcast e reforçou a ideia de que as redes sociais valem mais do que a televisão.
O efeito se estende para além desta eleição. Os candidatos de 2026 aprenderam que a ausência, combinada a uma liminar bem colocada, pode derrubar o principal debate da televisão aberta sem custo eleitoral aparente.
O eleitor que ficou sem palco
Nenhum dos atores desta história agiu fora de suas prerrogativas. Lula e Flávio podiam faltar. Os partidos podiam recorrer. Os ministros podiam decidir. A Globo podia cancelar. A soma dessas escolhas legítimas produziu um resultado que nenhum deles admite ter buscado: a campanha presidencial de 2026 chega ao primeiro turno sem um único confronto entre os dois candidatos com chances reais de vencer.
A televisão perdeu poder, e as redes e as liminares ocuparam o espaço. Essa troca tem consequências duradouras. O candidato que fala apenas para quem já o apoia vence sem precisar persuadir e governa sem ter sido testado pelo contraditório. O tribunal que define o formato do debate ocupa um lugar que deveria pertencer ao eleitor. A emissora que abandona o palco em protesto confirma que o palco perdeu importância.
A democracia brasileira já atravessou eleições sem debate. Nunca havia atravessado uma em que todos os envolvidos pareceram concordar, cada um por suas razões, que o debate podia ser dispensado. Campanha sem confronto produz eleitor sem comparação, e o eleitor sem comparação escolhe mais por fidelidade do que por convencimento.
