A vida, por vezes, nos confronta com roteiros que nenhuma lógica humana é capaz de decifrar. Recentemente, fomos atingidos por uma dessas notícias que paralisam o tempo e nos obrigam a questionar as engrenagens do destino: a morte precoce de Allan Nascimento, o “Puro Osso”, aos 34 anos de idade. Vitorioso no mundo das artes marciais, tendo chegado e vencido no mais alto palco do esporte, o UFC, atleta de ponta, um jovem no ápice de seu vigor físico, cuja conduta exemplar era um oásis de retidão em tempos onde o respeito e a disciplina parecem artigos de luxo.
Allan não era apenas um colecionador de vitórias e finalizações precisas; ele era a personificação da dedicação. Construiu uma carreira brilhante com suor, ética e um respeito irrestrito pela sua profissão, por seus adversários, por sua família e por seus amigos, entre os quais, orgulhosamente, incluo meu próprio filho. A tragédia de sua partida não se deu em um combate brutal, nem em um acidente inesperado, mas no silêncio da noite, durante o sono, vítima de um infarto fulminante. Sem doenças preexistentes, sem sinais de alerta, sem uma explicação racional que conforte o coração de quem fica.
Se, por um lado, nos traz algum alento saber que ele não sofreu em sua partida e que passou a vida inteira lutando, fazendo exatamente aquilo que mais amava, por outro, é profundamente desconfortável e perturbador ver um jovem tão próximo da perfeição física e moral falecer de forma tão abrupta. Nestas horas de luto e incredulidade, os mais religiosos erguem os olhos aos céus e questionam como os desígnios divinos permitem que alguém tão valoroso nos deixe tão cedo. Os mais céticos, por sua vez, voltam-se para a ciência, indagando como a medicina e a biologia permitem que uma máquina humana tão bem calibrada pare de funcionar do nada.
O filósofo francês Blaise Pascal eternizou a máxima de que “o coração tem razões que a própria razão desconhece”. E é exatamente neste abismo deixado pela falta de lógica que a emoção encontra seu espaço para transbordar. O que presenciei no velório de Allan foi um testemunho irrefutável dessa verdade. Foi um cenário tão belo quanto devastador. A dor pela ausência de motivos para aquela perda foi suplantada apenas pela manifestação genuína, inabalável e sincera de carinho de amigos, familiares, colegas de profissão e admiradores.
Confesso, com pesar, que não tive o privilégio de conhecer Allan com a profundidade que me permitisse trazer aqui passagens marcantes de sua história pessoal. Mas o que testemunhei naquele velório me faz crer, com absoluta convicção, que ele foi e será para sempre uma daquelas pessoas raras que lamentaremos eternamente não ter convivido mais. Porque quando a despedida de alguém é capaz de revelar, com tanta naturalidade e sinceridade, a grandeza de seu caráter, é sinal de que sua vida inteira foi um testemunho silencioso de virtude.
Quando a razão falha em nos dar respostas, é a solidariedade humana que nos sustenta. O pensador Viktor Frankl nos lembra que o sofrimento, quando inevitável, só deixa de ser um fardo insuportável no momento em que encontramos um sentido nele, muitas vezes através do amor. A vida de Allan teve um sentido profundo, e a dor de sua partida também o tem: ela nos lembra da nossa fragilidade e da importância de vivermos com propósito, amando e respeitando aqueles que nos cercam.
A morte, como apontava Epicuro, não deve ser temida, pois “quando existimos, não existe a morte, e quando existe a morte, não existimos mais”. Allan já não está aqui para sofrer as angústias do mundo, mas nós ficamos com a responsabilidade de honrar seu legado.
Estou profundamente impactado com esta perda irreparável. Contudo, encontro-me igualmente resignado e até mesmo esperançoso por ter presenciado tamanha manifestação de afeto. Quando tudo parece estar errado pela lógica fria dos fatos, é a nossa capacidade de nos emocionarmos e de nos unirmos na dor que prova que, no fim das contas, a beleza do amor e do respeito mútuo é a única força capaz de dar algum sentido ao inexplicável. Que a trajetória luminosa de Allan Nascimento nos sirva de bússola, lembrando-nos sempre de que, por mais breve que seja a vida, ela é vasta o suficiente para deixarmos marcas eternas no coração daqueles que amamos.
Allan viveu 34 anos. Fez caber neles o que muitos não alcançam em cem.
