Que tipo de eleição começa com um presidente estrangeiro chamando o presidente brasileiro de “ladrão”, “presidiário” e “lixo socialista” em território nacional? A pergunta resume o deslocamento do debate eleitoral de 2026: a disputa já é atravessada por pressões externas, ataques pessoais e conflitos institucionais.
O primeiro turno das eleições gerais de 2026 está marcado para 4 de outubro. Dos cinco pré-candidatos com vaga garantida nos debates de televisão, Lula, Flávio Bolsonaro, Ronaldo Caiado, Romeu Zema e Augusto Cury, nenhum protocolou até agora um plano de governo detalhado. O prazo legal para esse registro é mais próximo da votação, então a ausência, por si só, é normal. O incomum está no conteúdo da pré-campanha. Segurança pública, tarifas e embates institucionais dominam o noticiário, enquanto o debate sobre reforma tributária ou modelo previdenciário ocupa espaço residual diante do volume dedicado à disputa diplomática entre Brasília e Washington.

Duas razões explicam esse deslocamento. A primeira é o tamanho da disputa. A eleição segue acirrada, mesmo com o desgaste recente sofrido por Flávio Bolsonaro após a convenção do PL, e campanhas apertadas costumam concentrar energia em gestão de crise, não em construção de plataforma. A segunda razão é mais nova e mais reveladora. Uma série de práticas que antes funcionavam como subterfúgio, veladas, negadas quando questionadas, hoje operam às claras.
Essa mudança de eixo tem nome na teoria das relações internacionais. O cientista político americano Joseph Nye descreveu o poder brando como a capacidade de obter resultados pela atração e pela persuasão, em contraste com o poder duro, exercido pela coerção econômica e militar. A eleição brasileira de 2026 está sendo moldada, cada vez mais, pelo segundo tipo. Tarifas, vistos negados, relatorias judiciais e mensagens de apoio de líderes estrangeiros ocupam o espaço que, em ciclos eleitorais anteriores, pertencia a canais diplomáticos mais discretos.
Vale uma distinção antes de seguir adiante. O alinhamento ideológico entre lideranças de direita em diferentes países, a onda que levou Milei à convenção do PL e rendeu a Flávio Bolsonaro mensagens de apoio de Netanyahu, é fenômeno recorrente na história. O mundo oscila entre ciclos mais à esquerda e mais à direita, e líderes afins sempre torceram uns pelos outros. Essa simpatia declarada, por si só, tem pouco de extraordinário. O que muda o jogo é outra camada, mais concreta, o uso de instrumentos de Estado, tarifa, visto, relatoria, para produzir efeito direto sobre o resultado de uma eleição em outro país. Um chefe de governo aplaudir um candidato de fora é prática antiga. Um governo estrangeiro associar publicamente a manutenção de uma sanção econômica ao desfecho de um processo judicial que envolve o pai desse candidato é outra ordem de fato.
A ingerência externa em eleições tem longo histórico. Suspeitou-se da Rússia na eleição americana de 2016, mas o Kremlin negou qualquer envolvimento, e o debate se arrastou por anos entre acusação e desmentido. O traço distintivo de 2026 é outro. Autoridades identificadas fazem declarações sem eufemismo, ao vivo, com nome e sobrenome, algo raro nas décadas anteriores.
O apoio sem código
Em 26 de maio, o senador Flávio Bolsonaro foi recebido por Donald Trump no Salão Oval da Casa Branca. Presidentes em exercício costumam reservar esse tipo de recepção formal a chefes de Estado ou diplomatas de alto escalão. Receber um candidato à Presidência de outro país, antes de qualquer resultado eleitoral, rompe esse protocolo e sinaliza apoio direto à candidatura. O gesto ocorreu semanas depois de Lula visitar Trump e pedir que o governo americano não interferisse no pleito brasileiro.
Em 28 de julho, o governo Trump prorrogou por mais um ano a emergência nacional declarada sobre o Brasil, mantendo a tarifa de 50% sobre as importações brasileiras. A nota oficial da Casa Branca afirmou que membros do governo brasileiro perseguem politicamente um ex-presidente, sua família e seus seguidores, e que essa perseguição contribui para a erosão do Estado de Direito no Brasil. A justificativa oficial substitui o argumento comercial original, centrado em práticas desleais, por um argumento explicitamente político.
O senador Flávio Bolsonaro e o ex-deputado Eduardo Bolsonaro, que deixou o mandato, mantêm contato direto com representantes da extrema direita americana para ampliar essa pressão. O ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, declarou à Folha de S.Paulo que Flávio prejudicou as negociações comerciais ao validar, em conversas na Casa Branca, os próprios argumentos usados pelos Estados Unidos para justificar a tarifa.
O palco internacional
No sábado, 25 de julho, a convenção do PL que oficializou a candidatura de Flávio Bolsonaro, realizada no Estádio do Pacaembu, em São Paulo, reúne apoio de duas lideranças estrangeiras de peso. O presidente argentino Javier Milei compareceu pessoalmente e atacou publicamente o governo Lula, no que se encaixa na onda de afinidade ideológica já mencionada. Não se limitou, porém, a apoiar um candidato: chamou Lula de “ladrão”, “presidiário” e “lixo socialista”, e o ministro Alexandre de Moraes de “lixo careca”. Em entrevista posterior, voltou a chamar Lula de “ladrão” e “corrupto”. O primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu enviou mensagem de apoio à candidatura, no mesmo registro.
A presença de Milei rendeu reação imediata dentro do próprio campo da direita brasileira. No domingo, 26 de julho, o governador Ronaldo Caiado classificou o evento como baixaria e questionou o resultado prático das ofensas do argentino. Na segunda-feira, 27 de julho, em agenda na cidade de Bebedouro, no interior de São Paulo, Caiado foi mais direto e chamou de inadmissível a interferência de líderes estrangeiros no processo eleitoral brasileiro. A disputa já não se resume a governo contra oposição, atravessa também o campo interno da direita. O Itamaraty convocou o embaixador argentino e chamou para consultas o embaixador brasileiro em Buenos Aires, sinal de que o episódio ultrapassou a retórica eleitoral e produziu consequência diplomática formal.
A dúvida como estratégia
Dois funcionários do Departamento de Estado americano, Riley Bernes e Samuel Samson, pediram para visitar o Brasil sob a justificativa oficial de discutir a liberdade de expressão. O jornal americano The Washington Post revelou que o objetivo real da viagem era outro, reunir-se com críticos do sistema eleitoral brasileiro e questionar a confiabilidade das urnas eletrônicas. Depois da reportagem, o Itamaraty negou os vistos aos dois funcionários.
O TSE, por sua vez, negou credenciamento ao Eurolat Forum como observador internacional das eleições de 2026. Apenas quatro organismos seguem autorizados, a Organização dos Estados Americanos, a rede de organismos eleitorais da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, a União Europeia e a União Interamericana de Organismos Eleitorais. A entidade rejeitada alegou falta de critérios claros. O Tribunal respondeu que apenas organismos formalmente credenciados por acordo prévio podem atuar.
Flávio Bolsonaro nega ter questionado a segurança do processo eleitoral brasileiro e defende publicamente a presença de observadores internacionais, sem especificar quais. O padrão, porém, já é conhecido. Em 2022, o mesmo roteiro de questionamento das urnas antecedeu a contestação do resultado das eleições.
O mesmo ministro, três tabuleiros
Enquanto a arena internacional se movimenta, o tabuleiro institucional interno replica a mesma lógica. O ministro André Mendonça ocupa hoje três posições simultâneas de peso direto sobre o resultado da eleição. No Supremo Tribunal Federal, é o relator do caso Banco Master, e autorizou a Polícia Federal a usar cooperação internacional na apuração. No mesmo tribunal, autorizou, em 30 de julho, a abertura de inquérito contra Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente, por suposta corrupção e tráfico de influência. No Tribunal Superior Eleitoral, ocupa a vice-presidência ao lado de Kassio Nunes Marques, e ajudará a decidir o caso do vídeo de inteligência artificial de Jair Bolsonaro, tratado em detalhe no primeiro artigo desta série, um caso que dificilmente será o último do tipo a chegar à Corte antes de outubro.
Mendonça e Nunes Marques são as únicas indicações de Jair Bolsonaro ao Supremo Tribunal Federal. Comandam, juntos, a Justiça Eleitoral numa eleição em que a família de quem os indicou disputa a Presidência. O TSE já deu dois sinais de disposição para atuar além do papel tradicional de árbitro. Em 14 de julho, Nunes Marques apresentou a minuta do Selo Acurácia Eleitoral, mecanismo para premiar institutos de pesquisa cujos resultados mais se aproximaram do resultado final das urnas. Institutos como Datafolha, Quaest, Ipec, Ipespe e MDA se manifestaram contra a proposta, sob o argumento de que pesquisa é retrato de um momento, não previsão, é que a Justiça Eleitoral não deveria se tornar árbitro de qualidade metodológica. Semanas antes, o próprio Nunes Marques havia determinado a suspensão de uma pesquisa eleitoral do instituto AtlasIntel, decisão que o ministro Gilmar Mendes chegou a sinalizar publicamente que o Supremo poderia rever.
O time que para de contratar jogadores
A metáfora esportiva ajuda a entender o fenômeno. Um campeonato de futebol normalmente se decide pela qualidade dos times em campo, pela contratação de bons jogadores, pelo trabalho da comissão técnica, pelo desempenho no gramado. Imagine agora um campeonato em que os clubes reduzem o investimento em elenco e concentram recursos em influenciar o Superior Tribunal de Justiça Desportiva, o STJD, o órgão que julga infrações disciplinares dentro do próprio campeonato. O resultado passa a depender menos do que acontece em campo e mais de quem tem trânsito com quem apita as decisões no tribunal.
É essa lógica que parece orientar a pré-campanha de 2026. Tarifas, vistos, relatórios e mensagens de chefes de Estado ocupam o espaço que antes pertencia ao debate de propostas. O elenco, aqui, são os planos de governo. O STJD da eleição são o STF, o TSE e as chancelarias estrangeiras.
Onde o jogo se decide
O Brasil chega a outubro de 2026 com o resultado da eleição sujeito a duas contagens paralelas. Uma acontece nas urnas, com voto secreto e apuração pública, a única que tem validade jurídica. A outra acontece antes, nos gabinetes de Brasília e Washington, nas relatorias do STF e do TSE, nos vistos concedidos ou negados, nas mensagens de apoio que chegam de fora sem pedir licença. A primeira decide quem governa. A segunda decide, com antecedência, em que condições esse governo vai nascer, pressionado, questionado ou blindado antes mesmo de tomar posse. A questão decisiva é se os candidatos ainda disputarão o voto apresentando projetos ou se continuarão terceirizando a campanha para tarifas, tribunais e líderes estrangeiros. Se o aval de um presidente estrangeiro, a pressão sobre os tribunais e a disputa nos bastidores pesam mais do que a confiança do eleitor brasileiro, quem estará realmente escolhendo o próximo governo do Brasil?
