A eliminação diante da Noruega reacendeu o hábito de buscar um culpado único a cada Copa. Entre as peças desse quebra-cabeça, a imprensa é uma das mais urgentes de corrigir, inclusive para que ela própria preserve força e credibilidade.
Assim que o árbitro apitou o fim do jogo contra a Noruega, o noticiário esportivo já tinha fechado dois suspeitos preferenciais: Carlo Ancelotti, pela escalação e pela postura tática, ou Bruno Guimarães, pelo pênalti perdido aos treze minutos do primeiro tempo. A eliminação nas oitavas de final virou um exercício de simplificação editorial: encontrar um nome, fechar o caso, seguir em frente. O placar de 2 a 1, com dois gols de Erling Haaland e um desconto de Neymar já nos acréscimos, dificilmente conta a história inteira. O Brasil teve catorze finalizações contra a Noruega, mais do que o próprio adversário, e ainda assim perdeu. Bruno Guimarães desperdiçou o pênalti. Endrick teve uma chance cara a cara com o goleiro e não converteu. Nenhum desses dois nomes, isoladamente, explica uma eliminação construída por um time inteiro que não soube transformar controle criativo em gols.
O Brasil já tem prática nesse exercício, e o hábito não é inofensivo, ainda que sozinho não explique tudo. A imprensa esportiva integra a engrenagem que deveria produzir, a cada eliminação, um diagnóstico à altura do problema, e abdica dessa função sempre que escolhe um culpado fácil no lugar de uma explicação difícil.
Carlo Ancelotti, na entrevista coletiva após a partida, reconheceu que o time não merecia perder diante do empenho apresentado em campo, mas recusou-se a transformar isso em desculpa e já tratou a eliminação como aprendizado para o ciclo que mira 2030. O gesto contrasta com a cobertura que se seguiu, ansiosa por um veredito rápido e um nome só para carregar.

A Ausência de Protagonistas
Um diagnóstico sério começaria por uma pergunta simples, raramente feita com rigor: com que material a Seleção conta hoje. Colocar a culpa no técnico ignora essa questão anterior. A seleção que perdeu para a Noruega tinha, entre seus titulares, apenas um jogador capaz de decidir sozinho o resultado de uma partida grande, Vinícius Júnior. Os demais, mesmo atuando em clubes de primeira grandeza na Europa, ocupam papéis coadjuvantes dentro de seus próprios times. Compare-se essa realidade à geração de Ronaldo Fenômeno, Ronaldinho Gaúcho e Rivaldo, jogadores em torno dos quais suas equipes se organizavam taticamente, tanto na seleção quanto nos clubes. O Brasil não perdeu apenas jogos. Perdeu craques na acepção mais estrita do termo, aqueles capazes de vencer uma partida sozinhos.
Essa escassez não se resolve com troca de comissão técnica. Ancelotti é o quarto treinador a assumir a seleção desde a saída de Tite, em 2022: passaram pelo cargo Ramon Menezes, Fernando Diniz e Dorival Júnior antes dele. Quatro nomes em quatro anos. Se a rotatividade fosse a cura, o Brasil já estaria curado.
O próprio Ancelotti ilustra o problema, mesmo sem culpa direta nisso. Ao longo dos onze jogos que comandou antes do Mundial, convocou repetidamente Casemiro, Fabinho e Danilo, três volantes em fase de saída da seleção, sem identificar um talento mais jovem capaz de cumprir a mesma função. Fabinho, aliás, voltou à Seleção depois de três anos fora justamente como opção de perfil parecido com o de Casemiro. Se em onze jogos o técnico não encontrou alternativa jovem para uma única posição, a falha está na base que deveria produzir essa alternativa, não na escalação do treinador.
Essa leitura, porém, precisa considerar o tamanho do desfalque que o próprio Ancelotti enfrentou. Nos meses que antecederam o Mundial, o Brasil perdeu cinco titulares para lesões: Rodrygo e Éder Militão, com lesões ligamentares graves, Estêvão, com ruptura muscular, e Wesley, todos fora do torneio inteiro, além de Neymar, que se machucou na reta final da preparação e desfalcou a equipe durante toda a fase de grupos. Qual seleção do mundo suportaria perder cinco titulares às vésperas de uma Copa sem sentir o impacto?
Ancelotti também deixa um legado que a eliminação não apaga. Em dezenove jogos à frente da Seleção, contando o Mundial, o técnico resgatou o melhor futebol de Vinícius Júnior, tirou de Bruno Guimarães o nível mais alto que ele já mostrou pela camisa da Seleção, consolidou Matheus Cunha como titular absoluto e revelou dois nomes para o próximo ciclo: o atacante Rayan e o lateral-esquerdo Douglas Santos. Para 2030, o Brasil chega com mais opções do que tinha há um ano.
Contra a Tese do Erro Tático
Boa parte da cobertura da eliminação recaiu sobre a escalação e a postura tática de Ancelotti, como se um ajuste diferente tivesse revertido o resultado. Existe diferença, porém, entre um erro tático real e a distribuição confortável de culpa. Em 2014, Luiz Felipe Scolari cometeu um erro tático genuíno: subestimou a Alemanha, não estudou o adversário com o rigor necessário e foi para cima do time alemão como se jogar em casa garantisse superioridade. O resultado foi o pior da história da seleção. A situação de Ancelotti é distinta. Nenhuma seleção neste Mundial sustentou pressão alta durante os noventa minutos inteiros. As condições físicas impostas pelo calor nos Estados Unidos, no México e no Canadá inviabilizaram o modelo de intensidade constante que parte da torcida e da imprensa reclama, como se bastasse copiar o Flamengo de Jorge Jesus para resolver décadas de defasagem estrutural. Cobrar de Ancelotti um estilo que nenhuma potência do futebol mundial conseguiu sustentar nesta edição da Copa é confundir preferência estética com erro técnico.
O Paradoxo do Técnico Estrangeiro
A imprensa agora volta suas baterias para o dilema de ter um técnico estrangeiro. Crucificam o italiano sob o argumento de que o Brasil precisa retomar uma raiz de futebol que seria diferente do estilo europeu. Vejam o paradoxo: o país passou anos elogiando o futebol europeu, seus jogadores e, principalmente, seus técnicos. Basta um primeiro tropeço para reativar a discussão canhestra de que só vencem Copas as seleções comandadas por técnicos nacionais. Que loucura.
O maior problema, na verdade, é a falta de craques que deem opção ao técnico, e isso aponta para um problema estrutural: o modelo de negócio brasileiro privilegia a exportação cada vez mais precoce de jovens talentos, que se desenvolvem na Europa em posições que não cobrem a carência brasileira. Quando o Brasil exportava jogadores já maduros e protagonistas, eles mantinham as mesmas posições que tinham aqui, porque eram protagonistas lá e cá. Hoje exporta material cru, que será lapidado conforme a necessidade do clube que o recebe, não conforme a necessidade da própria Seleção.
O Espelho Espanhol e Alemão
A obsessão brasileira por um culpado único esconde um dado incômodo: ciclos de baixa atingem até as maiores potências do futebol mundial e não são fenômeno exclusivamente nacional. A Espanha, hoje enaltecida como modelo de futebol de posição, foi campeã em 2010, caiu na fase de grupos em 2014, não passou das oitavas de final em 2018 e em 2022, e chega à decisão deste domingo contra a Argentina depois de dezesseis anos de jejum. Título, eliminação precoce, eliminação precoce, campanha discreta, final. Poucos brasileiros assinariam esse roteiro para a própria seleção, mas aplaudem quando ele pertence a outro país. A Alemanha, tetracampeã e vencedora em 2014, caiu na fase de grupos em 2018 e repetiu a eliminação precoce em 2022, também na fase de grupos. Gigantes do futebol atravessam desertos. A diferença é que eles reconstroem com paciência, e o Brasil trata cada eliminação como um assassinato que precisa de assassino. A imprensa espanhola e a alemã tratam esses ciclos como parte do jogo, não como escândalo a ser resolvido em uma coletiva. É essa sobriedade analítica, mais do que qualquer vantagem técnica momentânea, que separa uma potência de futebol madura de uma seleção refém do próprio noticiário.
O Modelo de Exportação e o Exemplo Francês
Vale observar também o exemplo francês. Nesta Copa, 76 jogadores nascidos em solo francês estão espalhados por outras seleções, fruto da dupla nacionalidade e dos laços com as ex-colônias. O programa francês de atrair talentos dessas comunidades funciona há décadas: basta comparar a formação da seleção francesa dos anos 1990 até hoje. Como resultado, a França tem craques sobrando para o técnico escolher, o que ajuda a explicar a hegemonia francesa dos últimos anos, com um título e uma final nos dois últimos ciclos. A cada Copa, a seleção se fortalece.
O Brasil precisa ficar atento aos próprios jovens e também observar talentos de outras nacionalidades que, após eventual naturalização, poderiam reforçar a Seleção principal. Por descuido da CBF, o país perdeu para outras seleções nomes como Jorginho, Thiago Motta, Thiago Alcântara, Deco, Pepe, Otávio e Matheus Nunes, todos com algum vínculo brasileiro. O Brasil precisa ampliar seus horizontes.
Uma Tradição de Culpados Únicos
A imprensa esportiva brasileira tem uma tradição consolidada nesse tipo de simplificação, repetida a cada eliminação desde o pentacampeonato de 2002. Em 1998, a crise convulsiva de Ronaldo horas antes da final contra a França virou a explicação oficial para uma derrota por 3 a 0, absolvendo um time que já vinha de campanha instável ao longo do torneio. O episódio foi longe o bastante para gerar uma CPI no Congresso, aberta em 2000 para apurar o contrato entre a CBF e a Nike e a suspeita de que o patrocínio interferia até na escalação da seleção. Em 2006, ficou a imagem de Roberto Carlos ajeitando o meião no instante em que Thierry Henry marcava o gol que eliminou o Brasil nas quartas de final, atalho confortável para explicar noventa minutos de futebol apagado diante de uma seleção francesa claramente superior naquela noite. Em 2010, o gol contra e a expulsão de Felipe Melo, na virada diante da Holanda, tornaram-se o resumo oficial de uma eliminação que envolveu decisões questionáveis do técnico Dunga e uma vantagem desperdiçada no placar. Em 2014, o 7 a 1 para a Alemanha no Mineirão dispensa qualquer culpado individual, mas ainda assim produziu bodes expiatórios paralelos, a ausência de Neymar, lesionado na fase anterior, e a suspensão do capitão Thiago Silva, apontadas à exaustão como as causas da goleada, quando o problema real foi a decisão tática de Felipão já discutida acima.
Em 2018, diante da Bélgica, a explicação preferida recaiu sobre a escalação: a entrada de Marcelo no lugar de Filipe Luís foi tratada como se aquela troca, isolada, tivesse decidido a eliminação por 2 a 1, ofuscando um segundo tempo de futebol estéril diante de uma seleção belga mais organizada. Em 2022, o Brasil caiu nos pênaltis diante da Croácia depois de Rodrygo parar nas mãos do goleiro Livakovic e Marquinhos acertar a trave, mas a crítica já havia se fixado, antes da disputa por pênaltis, em outro lance: a leitura de que Casemiro deveria ter cometido a falta tática que conteria o contra-ataque do gol de empate croata na prorrogação, como se aquele segundo específico resumisse os cento e vinte minutos de um time que não conseguiu sustentar a vantagem aberta por Neymar. Agora, em 2026, esse posto cabe a Bruno Guimarães, ainda que ele estivesse longe de ser o único responsável pelas chances desperdiçadas naquela tarde.
Vinte e cinco anos depois, o Congresso voltou a se debruçar sobre o futebol, mas trocou de alvo. Dias após a eliminação de 2026, um projeto de lei apresentado na Câmara propõe proibir que jogadores e técnicos baseados no exterior integrem a Seleção Brasileira, sob a justificativa de fortalecer o futebol nacional. Em 1998, o Congresso investigava se uma multinacional influenciava demais a escalação do time. Em 2026, o Congresso propõe resolver a falta de craques restringindo por lei quem pode vesti-la. Veja a que ponto chegamos.
O Pano que a Imprensa Estende
O padrão de 2026 confirma uma tendência mais ampla que atravessa décadas: a imprensa esportiva brasileira costuma poupar o conjunto de jogadores e concentrar o julgamento em um nome só, seja o técnico, seja o autor de um lance específico. A exceção histórica é Neymar, cobrado de forma persistente ao longo de toda a carreira na seleção, inclusive em campanhas nas quais sua atuação individual não foi o problema central. Fora esse caso, o restante do elenco atravessa eliminações quase imune à crítica pessoal. Contra a Noruega, o Brasil segurou o resultado até os 80 minutos, quando Haaland decidiu a partida com dois gols. Não foi um time dominado do início ao fim, foi um time sem um jogador capaz de resolver a partida sozinho no momento em que o jogo pedia decisão. Ainda assim, a cobertura pós-jogo se concentrou quase inteiramente na cobrança de Bruno Guimarães e na escalação de Ancelotti. Endrick, que desperdiçou uma chance clara cara a cara com o goleiro, mal apareceu nas manchetes do dia seguinte. Os outros nove jogadores de linha que estiveram em campo também não. A verdade é que os jogadores não foram decisivos quando precisamos.
Quando o culpado é o técnico, ele carrega a derrota sozinho. Quando o culpado é um jogador, ele carrega a derrota sozinho. O time, quase nunca. Um diagnóstico sério faria essa lista completa: nem craques, nem calor, nem quatro trocas de técnico, pesados isoladamente, explicam a eliminação. O processo inteiro explica, e a imprensa é uma das poucas peças desse processo que poderia mudar de postura sem depender de investimento, categoria de base ou paciência da CBF.
O Interesse da Própria Imprensa
A imprensa esportiva brasileira enfrenta a mesma crise de credibilidade que atravessa o jornalismo em geral: audiências fragmentadas, algoritmos que premiam a reação instantânea e um público cada vez mais desconfiado da cobertura tradicional. Insistir no culpado fácil rende engajamento no dia da eliminação e corrói, eliminação após eliminação, a autoridade de quem deveria ser a referência analítica do torcedor. Produzir diagnóstico em vez de veredito fortalece o futebol que a imprensa cobre e a própria razão de existir dela, em um momento no qual essa autoridade já não pode ser dada como certa.
Uma Peça do Caminho, Não a Explicação Inteira
O Brasil perdeu para a Noruega por várias razões que antecedem o pênalti desperdiçado por Bruno Guimarães: tem cada vez menos jogadores capazes de decidir partidas sozinhos, insiste em cobrar um estilo de jogo que nenhuma seleção sustentou neste Mundial e trocou quatro treinadores em quatro anos sem tratar a causa real do problema. Nada disso cabe no rosto de um único jogador, nem caberia inteiro nos ombros de um técnico contratado havia poucos meses. A imprensa herdou esses problemas, não os criou, e segue tratando cada eliminação como veredito em vez de investigação. Parte da solução depende de diagnóstico, ofício de quem cobre, não só de quem joga.
A cultura do só vale o título transformou o torcedor brasileiro em um juiz que raramente examina o próprio tribunal. A imprensa esportiva tem o poder de moderar essa cultura ou de alimentá-la, e hoje escolhe alimentá-la. A Espanha aceita que títulos vêm em ciclos, a Alemanha reconstrói sem histeria depois de cada tropeço, e essa maturidade tem tanto a ver com a paciência de suas federações quanto com a sobriedade de suas imprensas. O Brasil segue precisando de um culpado a cada Copa. Trocar o vilão de plantão por uma pergunta melhor é uma peça do caminho, talvez a mais eficiente de todas, porque não custa um centavo à CBF. O ganho seria duplo: para o futebol que a imprensa cobre e para a própria imprensa, que precisa recuperar a autoridade de quem analisa, não apenas de quem narra.
