A primeira rodada do Mundial de 2026 prova que o torneio funciona. Mas enquanto o futebol acontecia nos gramados, uma revolução silenciosa enterrava décadas de monopólio televisivo no Brasil.
Dois fenômenos simultâneos definem esta Copa do Mundo. O primeiro: contra todas as previsões pessimistas, o torneio funciona. Os números são inequívocos, os estádios estão lotados, os gols estão acontecendo e os craques estão aparecendo na hora certa. O segundo: enquanto o futebol acontecia nos gramados americanos, uma revolução silenciosa e irreversível enterrava décadas de monopólio televisivo no Brasil. São duas histórias que se cruzam, mas precisam ser lidas separadamente para serem compreendidas juntas.
A Copa que não deveria dar certo, mas deu
O argumento contra este Mundial era robusto. Preço de ingresso proibitivo. Política anti-imigração de Trump dificultando a entrada de torcedores nos Estados Unidos. Público americano historicamente indiferente ao futebol. Torneio inflado com 48 seleções, incluindo equipes sem tradição e sem público. A receita perfeita para o fracasso. Pois bem: o fracasso não veio.
A primeira rodada registrou 75 gols em 24 jogos, atingindo a média de 3,13 gols por partida. Trata-se da maior marca em rodadas inaugurais de Mundiais desde a Copa de 1958. A média de ocupação dos estádios ficou em 99,4%, com oito jogos com lotação máxima, incluindo o do Brasil. Caso o ritmo se mantenha, o torneio superará 6,8 milhões de torcedores presenciais, tornando-se a segunda maior edição da história em público por partida. Esses não são números de uma Copa que deu errado. São números de uma Copa que surpreendeu.
Os artilheiros aparecem no momento certo. Messi anotou um hat-trick e igualou Miroslav Klose como maior artilheiro da história das Copas. A Alemanha aplicou 7 a 1 sobre Curaçao com uma eficiência que faz lembrar as melhores versões da máquina germânica. Mas não foram só goleadas. Esse é precisamente o ponto que os críticos do formato de 48 seleções não conseguiram prever. Cabo Verde, estreante absoluta em Copas do Mundo, segurou a Espanha num empate sem gols e revelou ao mundo o goleiro Vozinha. A República Democrática do Congo arrancou um empate diante de Portugal. A Coreia do Sul virou sobre a República Tcheca. A Costa do Marfim bateu o Equador. Dos primeiros 16 jogos disputados, os favoritos tropeçaram em dez oportunidades. Apenas 37,5% deles justificaram o favoritismo dentro de campo. A expansão do torneio não diluiu a qualidade dos grandes confrontos. Ela adicionou algo que o formato anterior não entregava: imprevisibilidade real, com equipes de menor expressão capazes de fazer história em vez de apenas completar a chave.

Para ser perfeita, a Copa precisaria de duas coisas que estão fora do alcance de qualquer regulação. A Itália, ausente por demérito próprio, é uma tragédia esportiva sem solução regulatória. E o Brasil, que ainda precisa deslanchar. A Seleção estreou com um empate contra Marrocos que trouxe mais angústia do que confiança. Mas isso é matéria para o próximo capítulo.
Esta Copa também revelou algo que o calendário do futebol teima em ignorar: o preparo físico virou fator decisivo de resultado. As seleções africanas foram a prova mais eloquente disso. Enquanto tiveram pernas para correr, fizeram frente aos favoritos europeus com uma intensidade que surpreendeu. Quando o físico cedeu, o resultado seguiu. Mas o dado mais revelador vem do outro lado: os jogadores europeus chegaram ao Mundial logo após o fim de uma temporada extenuante, com mais de dez meses de competição nas costas, e ainda assim apresentaram nível físico e técnico impressionante. Isso não é coincidência. É resultado de estrutura, ciência esportiva e profissionalismo que vai muito além dos noventa minutos. A lição é clara e desconfortável: em ano de Copa do Mundo, a temporada europeia não termina em maio. Na prática, ela não termina. Apenas muda de palco.
Há ainda um termômetro de engajamento que os relatórios oficiais da FIFA raramente destacam, mas que o mercado acompanha com atenção: o volume de apostas esportivas. Só no Brasil, a expectativa é de que os jogos desta Copa movimentem cerca de 30 bilhões de reais em apostas ao longo do torneio. Em apenas um mês de competição, esse número se aproxima do PIB anual de países inteiros. Para as plataformas de apostas, a Copa também é um sucesso retumbante. Não se trata aqui de avaliar os efeitos sociais desse fenômeno, debate legítimo e necessário que merece espaço próprio. O que os números revelam, sob uma perspectiva estritamente mercadológica, é que o engajamento do torcedor com o torneio vai muito além das arquibancadas e das telas. Ele se traduz em envolvimento financeiro, em atenção sustentada jogo a jogo, em interesse que atravessa todas as fases. Nenhum produto de entretenimento global consegue esse nível de adesão. Isso, por si só, diz muito sobre a força do Mundial.
A internet mostrou sua força. E a TV nunca mais será a mesma
Enquanto os gols eram marcados nos estádios americanos, um outro jogo acontecia no Brasil. Não se pode decretar uma derrota da televisão. Mas o que temos visto no hábito do torcedor brasileiro ao assistir aos jogos é a demonstração inequívoca de que a internet chegou para disputar espaço de igual para igual, com números que nenhum executivo de emissora pode ignorar.
A CazéTV, canal de Casimiro Miguel no YouTube, é a única emissora brasileira com direitos de transmissão de todos os 104 jogos do torneio, transmitindo de forma gratuita. Isso não é um detalhe operacional. É uma ruptura estrutural no modelo de negócio que dominou as transmissões esportivas no Brasil por décadas. Na estreia da Seleção Brasileira contra Marrocos, o canal alcançou pico estimado de 14 milhões de espectadores simultâneos, estabelecendo o maior recorde de audiência já registrado por uma transmissão esportiva ao vivo no YouTube. Ao todo, a partida acumulou 56 milhões de visualizações entre ao vivo e pós-jogo.
Do outro lado, a Globo registrou queda de 33% no público em relação à estreia do Mundial de 2022, marcando o pior desempenho em transmissões da Seleção Brasileira em Copas do Mundo na história da emissora. Mas os números precisam ser lidos com cuidado. A emissora ainda alcançou 50 milhões de pessoas no jogo do Brasil, somando TV aberta, SporTV e GE TV, e manteve 51% de share. Não é a morte de um modelo. É o sinal claro de uma tendência: a audiência que antes se concentrava num único canal agora se distribui entre plataformas. A Globo continua grande. Mas já não é a única referência. E essa diferença, ainda que sutil nos números de hoje, aponta para uma direção que não se reverte.
Há um símbolo perfeito para essa transição. Esta Copa marca o primeiro Mundial sem a narração de Galvão Bueno na Globo em mais de quatro décadas. O narrador migrou para o SBT. A voz que o Brasil associou por gerações ao futebol de Copa saiu do lugar de sempre, e o mundo seguiu em frente sem drama. Mais do que a saída de um profissional, isso representa o fim de uma era em que a experiência de assistir à Copa era mediada por um modelo único, vertical e insubstituível.
O modelo digital veio para ficar. Mas ainda tem conquistas a fazer. Esta Copa expôs com clareza duas limitações que a internet precisará resolver para consolidar sua posição: a qualidade da imagem transmitida, que em muitos momentos ficou aquém do sinal televisivo tradicional, e o delay da transmissão, esse atraso de alguns segundos que faz o torcedor na frente do celular saber do gol pelo barulho da rua antes de vê-lo na tela. São problemas com solução tecnológica conhecida. Não são obstáculos permanentes. Mas nesta Copa mostraram que a experiência digital ainda não é a televisão. É uma alternativa vibrante, crescente e legítima que, para ser plenamente soberana, precisará entregar ao torcedor o que ele mais quer: o gol no momento em que ele acontece, com a nitidez que o futebol merece.
A nova linguagem e a velha chatice dos comentaristas
A diferença central da CazéTV em relação ao modelo tradicional não está apenas na plataforma. Está na linguagem. Sai a narração formal e hierárquica. Entram os comentários descontraídos, o humor, a reação genuína e a sensação de estar assistindo ao jogo com um grupo de amigos. Esse não é um detalhe estético. É uma virada de paradigma sobre o que o público, especialmente as novas gerações, espera de uma transmissão esportiva.
A internet bateu a TV. Os influencers bateram os jornalistas tradicionais. A própria Globo, ao criar o GE TV no Youtube, buscou não apenas usufruir da plataforma de streaming mais popular do mundo, mas também oferecer ao telespectador uma linguagem mais solta e descontraída. É verdade que nesse mundial, a GE TV está transmitindo os jogos apenas pelo aplicativo Globoplay, pela exclusividade que a Cazé TV tem na transmissão por Youtube. Mas essa nova roupagem da Globo no GE TV já aparecia antes, em outras transmissões.
Entretanto, seja nos modelos mais sóbrios, seja na roupagem mais voltada ao entretenimento, existe entre todos os canais, plataformas e emissoras um ponto em comum. Os ex-jogadores comentaristas. Tanto na televisão quanto no digital, a turma dos ex-atletas segue ocupando espaço com a mesma autoridade de sempre, doutrinando sobre como se deve chutar, passar, pressionar e vencer o um contra um. Com uma particularidade que a memória esportiva não perdoa: quando jogavam, a maioria não fazia metade do que eles mesmos cobram dos atletas de hoje. Há um certo conforto na ironia de ver jogadores medianos de antes agora ensinando técnicos e profissionais que os superariam em qualquer campo.
O padrão é conhecido. O ex-jogador passa o jogo inteiro poupando ex-colegas, atribuindo a cada erro uma justificativa técnica que os próprios jogadores não usariam, e a cada acerto uma sabedoria que nunca tiveram quando em campo. Falam como se o jogo que estão comentando fosse um problema de lógica que qualquer pessoa com chuteira resolveria. A mudança de plataforma foi radical, mas o comentarista de corporação ainda está lá.
O paradigma que não volta mais
O que esta Copa revelou não é uma disrupção passageira. É uma nova configuração permanente. A CazéTV garantiu receita estimada em 2 bilhões de reais em patrocínios para este Mundial, com marcas como Ambev, Coca-Cola, iFood, Mercado Livre e Itaú compondo o portfólio. O modelo não é mais experimental. É estrutural. É rentável. É incontornável.
Daqui em diante, toda Copa, todo torneio, toda transmissão de grande evento no Brasil será assim: distribuída entre plataformas, disputada em linguagens diferentes, consumida em telas distintas por públicos que não se sobrepõem completamente. A televisão não morreu e está longe disso. Mas a exclusividade total como modelo de negócio pertence ao passado. O que esta Copa mostrou, com números concretos, é que a internet deixou de ser alternativa para se tornar protagonista, como força paralela e crescente que vai, Copa a Copa, redefinir o peso de cada plataforma.
O futebol ganhou. O público ganhou. A escolha ganhou. O que se encerrou nesta Copa não foi um contrato de transmissão. Foi um modelo de poder sobre a experiência coletiva de um país que, por décadas, escolheu junto o mesmo canal para viver os mesmos momentos. Agora cada um escolhe onde, como e com quem assiste. E isso é, ao mesmo tempo, uma conquista e uma perda. Uma conquista de autonomia. Uma perda de algo que nunca mais voltará: a sensação de que todo o Brasil estava olhando para o mesmo lugar.
A Copa de 2026 está dando certo. O Brasil, no campo, ainda precisa fazer a sua parte. Mas fora dele, já demonstrou que sabe muito bem onde quer estar: na frente de uma tela que escolheu, com a linguagem que prefere, sem pedir permissão a ninguém.
