O governo americano encontrou um novo vilão na sua lista de acusações contra o Brasil. Chama-se Pix. No relatório da Seção 301 que fundamenta o tarifaço de 2026, o USTR descreve o sistema de pagamentos instantâneos do Banco Central como uma prática desleal, um instrumento que "prejudica os provedores de serviços de pagamento eletrônico dos EUA" para favorecer, nas palavras do próprio documento, o "campeão nacional" brasileiro. A leitura mais imediata é econômica: Washington estaria protegendo Visa, Mastercard e as demais bandeiras de cartão contra um concorrente estatal gratuito. É uma explicação confortável. E é insuficiente.

Os números não sustentam a tese do embate comercial. Os cartões de crédito e débito cresceram no Brasil nesse mesmo período. O volume transacionado em cartão de crédito subiu 14% entre 2024 e 2025, chegando a R$ 3 trilhões, e o comércio eletrônico continua tendo quase metade do seu volume passando por bandeiras internacionais. O verdadeiro alvo destruído pelo Pix foi o dinheiro em espécie, não o mercado das bandeiras. O Brasil hoje usa cédulas e moedas na mesma proporção que Estados Unidos e Reino Unido, países que historicamente tinham uma fatia maior da população com conta em banco, ainda que a tecnologia bancária brasileira sempre tenha estado na vanguarda nesse período. Se a disputa fosse apenas por fatia de mercado de pagamento eletrônico, a queixa americana já teria perdido o seu objeto. Pix e cartão convivem, muitas vezes na mesma compra. O verdadeiro adversário do Pix sempre foi a nota de papel, não o plástico com bandeira americana.

A pergunta que o relatório do USTR não responde

Se o argumento comercial não fecha a conta, resta perguntar o que de fato está em jogo. A resposta está na arquitetura do sistema financeiro internacional, mais do que na concorrência entre empresas. Susan Strange, uma das fundadoras da Economia Política Internacional, descreveu esse tipo de disputa com um conceito preciso: poder estrutural. É o poder de determinar as regras dentro das quais todas as negociações acontecem, mais do que o poder de vencer uma negociação pontual. Para Strange e para Benjamin Cohen, que aprofundou o conceito aplicado à moeda, o país que controla a infraestrutura financeira global não precisa convencer ninguém a segui-lo. Basta que os outros dependam do sistema que ele opera.

O Pix rompeu essa lógica de dependência em um ponto específico. Ao construir um sistema de pagamentos instantâneos operado inteiramente pelo Banco Central, sem depender de acordos com redes internacionais de cartão, o Brasil resolveu um problema que a maioria dos países nem tenta resolver: criou uma infraestrutura de pagamento doméstica, soberana e replicável. O relatório do Global Payments Report de 2026 já registra o interesse de outros países emergentes na tecnologia. É esse precedente, mais do que a receita perdida pelas bandeiras americanas, que preocupa Washington. Um sistema de pagamento fora do controle das redes ocidentais, se exportado, se torna um modelo de fuga da estrutura que os Estados Unidos ajudaram a desenhar desde Bretton Woods.

Já analisamos aqui essa mesma lógica na guerra no Oriente Médio. Para quem ainda não leu, fica o convite: em "A Matriz do Poder", explicamos por que, mesmo com o crescimento da produção de energia americana na última década, os Estados Unidos seguem tratando o controle do petrodólar como questão de segurança nacional, porque o que sustenta essa hegemonia é o comando da moeda em que o petróleo é precificado e liquidado no mundo inteiro, não o abastecimento físico do próprio óleo. O Pix segue a mesma lógica estrutural. A disputa gira em torno de quem controla as transações financeiras do mundo digital, mais do que sobre o Brasil, a Visa ou a Mastercard, assim como o petrodólar decide quem controla as transações energéticas do mundo físico.

O precedente que o Brasil já vive: o GPS

O Brasil não é estranho a esse tipo de dependência. Todos os dias, sem perceber, o país inteiro confia sua localização, sua logística, sua agricultura de precisão e até seus sistemas de tráfego aéreo a uma rede de satélites operada pelo governo americano. O GPS é gratuito, funcional e universal, mas não é neutro. Pertence à Força Espacial dos Estados Unidos, que pode, em tese, degradar ou restringir o sinal em qualquer região do planeta, como já demonstrou fazer em zonas de conflito. A União Europeia construiu o Galileo, a Rússia manteve o GLONASS, a China desenvolveu o BeiDou, não por vaidade tecnológica, mas porque nenhum país que se leva a sério permanece refém de uma infraestrutura crítica que outro Estado controla unilateralmente.

O Pix nasceu, ainda que não tenha sido esse o discurso oficial do Banco Central à época, como o equivalente brasileiro a essa lição. Um sistema de pagamentos que não depende de compensação via redes internacionais, que não paga pedágio a intermediários estrangeiros, que não pode ser suspenso por decisão de uma empresa privada sediada em outro país. A comparação com o GPS tem peso estrutural, não apenas retórico, porque ambas as infraestruturas permanecem invisíveis até o dia em que alguém decide usá-las como instrumento de pressão.

Quando o pagamento vira arma

O mundo já assistiu a essa transformação antes. A rede SWIFT, o sistema que processa mensagens de transferências bancárias internacionais, sempre foi apresentada como uma cooperativa técnica neutra, sediada na Bélgica, alheia à política. Em 2022, Estados Unidos e União Europeia desconectaram bancos russos da SWIFT como resposta à invasão da Ucrânia. Em poucas semanas, uma infraestrutura que parecia pura tubulação técnica revelou sua verdadeira natureza: era, o tempo todo, um instrumento de poder geopolítico. Nenhum país que dependa de uma infraestrutura financeira controlada por terceiros pode presumir que ela permanecerá neutra para sempre. A neutralidade das redes financeiras dura exatamente até o momento em que os interesses de quem as controla exigem o contrário.

É por isso que a crítica americana ao Pix, ainda que formalmente vestida de linguagem antitruste, carrega um peso maior do que a defesa de Visa e Mastercard. O que incomoda é o exemplo, mais do que o prejuízo às bandeiras. Um país de renda média que constrói, opera e exporta sua própria infraestrutura de pagamento é uma exceção ao roteiro esperado. A maioria das nações se conecta ao sistema financeiro internacional através de estruturas desenhadas, mantidas e, quando necessário, controladas por Washington. O Brasil, nesse ponto específico, escreveu suas próprias regras.

A soberania como cálculo estratégico

Seria um erro, no entanto, transformar essa discussão em antiamericanismo travestido de análise. A questão central é de realismo, não de ruptura com o sistema financeiro internacional nem de hostilidade contra os Estados Unidos. Trata-se de reconhecer, com o mesmo critério que qualquer nação deveria aplicar às próprias infraestruturas críticas, que nenhum país pode depender inteiramente de um único sistema de pagamento, de posicionamento, de comunicação ou de compensação financeira controlado por outra potência. Isso vale para o Pix diante de pressões americanas. Vale igualmente para eventuais tentativas de substituir essa dependência por outra, seja ela chinesa, europeia ou russa. Soberania estrutural é a capacidade de evitar a condição de refém de um único ponto de controle, independentemente dos vínculos externos que um país mantenha.

O Brasil não vai deixar de usar o GPS amanhã, nem tem qualquer motivo pragmático para isso. Os países precisam cultivar alternativas para manter a soberania. Por isso devem exigir transparência sobre como e quando essas infraestruturas podem ser usadas como instrumento de pressão e manter viva a capacidade de operar sistemas próprios em áreas estratégicas. O tarifaço contra o Pix é, antes de tudo, uma disputa sobre quem escreve as regras da próxima década de finanças digitais, e sobre se o Brasil vai continuar sendo uma das poucas nações capazes de escrever as suas.

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