Tecnologia, novos modelos de financiamento e mudanças na governança estão redesenhando o mercado de capitais. Se um investidor voltasse ao início dos anos 1990 e observasse as maiores empresas do mundo, provavelmente concluiria que muitas dominariam a economia global por longos períodos. Quase nenhuma domina hoje.
Durante décadas, investidores e acionistas nortearam suas estratégias com uma premissa simples: grandes empresas são estruturas duradouras. Elas atravessam crises, trocam lideranças e enfrentam ciclos econômicos. Ainda assim, permanecem.
Essa crença moldou a forma como mercados financeiros, reguladores e executivos compreenderam o capitalismo moderno. Hoje, porém, surgem sinais claros de que essa premissa está desatualizada. Uma maneira simples de visualizar essa mudança é comparar as empresas que dominavam os mercados de capitais nos anos 1990 com as que lideram hoje.
Nos Estados Unidos, o topo era ocupado por gigantes industriais e de energia, como Exxon, General Electric, IBM, AT&T, e Walmart. Trinta anos depois, o mapa mudou profundamente. Hoje, o topo pertence a empresas digitais e plataformas tecnológicas como Apple, Microsoft, Nvidia, Amazon e Alphabet.
Esse fenômeno não é totalmente novo. Joseph Schumpeter descreveu, no começo do século XX, o capitalismo como um processo contínuo de “destruição criativa”, no qual novas tecnologias substituem empresas e setores considerados permanentes. A diferença é que agora essa destruição está acelerada e, talvez pela primeira vez, mais rápida do que a maioria das empresas consegue absorver. Décadas depois, Clayton Christensen descreveu uma dinâmica semelhante ao falar de “inovação disruptiva”.
Essa transformação se manifesta não apenas na troca de empresas dominantes, mas também no tempo em que elas permanecem no topo. A história econômica mostra que mudanças tecnológicas profundas raramente preservam as estruturas empresariais existentes. A revolução digital e a inteligência artificial não estão apenas criando empresas. Elas estão redefinindo o próprio conceito de empresa.
A redução do tempo de permanência das empresas na bolsa
Estudos indicam que o tempo da presença das empresas nos mercados acionários vem se tornando cada vez mais curto. Pesquisas da McKinsey e da consultoria Innosight mostram que o tempo médio de permanência das empresas no índice S&P 500 caiu drasticamente nas últimas décadas. Na década de 1950, uma empresa permanecia, em média, por cerca de 60 anos. Nos anos 1980, esse período caiu para cerca de 30 anos. Nas últimas décadas, aproximou-se de 20 anos e projeções sugerem que esse prazo cairá para cerca de 15 anos. Em outras palavras, a velocidade com que empresas entram e saem do grupo das maiores companhias listadas vem aumentando.
Análises indicam que aproximadamente metade das empresas atualmente presentes no S&P 500 poderá ser substituída ao longo desta década.
Naturalmente, a substituição de empresas em um índice como o S&P 500 não implica, necessariamente, o desaparecimento dessas companhias ou sua saída do mercado acionário. Muitas continuam existindo e operando normalmente. Ainda assim, a rapidez dessa rotatividade revela uma mudança estrutural na estabilidade das empresas que dominam os mercados e na sua relevância no mercado acionário.
Esse encurtamento ocorre ao mesmo tempo em que o número total de empresas listadas diminui em várias economias desenvolvidas. Nos Estados Unidos, por exemplo, o total caiu de cerca de 8.000 empresas listadas nos anos 1990 para pouco mais de 4.000 atualmente. No Brasil, havia 600 empresas listadas no início da década de 1990 e hoje há 358.
A nova lógica da criação de valor.
A convergência entre inteligência artificial e plataformas digitais está reformulando a dinâmica competitiva da economia e, consequentemente, das bolsas. Empresas digitais frequentemente conseguem crescer a uma velocidade inédita, com estruturas menores e grande capacidade de escalar seus modelos globalmente.
Parte dessa mudança decorre da natureza dos modelos digitais. Plataformas baseadas em software escalam com custos marginais muito baixos, permitindo que poucas empresas concentrem uma grande parcela do valor econômico. Este capitalismo de plataformas digitais tende ao monopólio, pois cria mercados dominados por poucos gigantes, como Amazon, Alphabet, Apple e Meta.
No século XX, crescer significava contratar mais pessoas e construir ativos físicos. No século XXI, crescimento significa automatizar processos e expandir o uso de software e de redes digitais. O capitalismo digital premia a escala de rede.
Essa transformação desloca valor econômico para empresas que dominam o software, os algoritmos e a infraestrutura digital da economia. Para o economista grego Yanis Varoufakis, as grandes plataformas digitais passaram a funcionar como verdadeiros territórios econômicos privados em escala continental, nos quais empresas e consumidores operam sem o ônus das empresas tradicionais, como limitações regionais, elevado número de empregados, cadeias logísticas gigantescas e forte regulamentação. Na visão do economista grego, as empresas listadas hoje serão absorvidas ou subordinadas às plataformas digitais dominantes.
A história, porém, também mostra que algumas empresas conseguem se reinventar diante de mudanças tecnológicas. Microsoft e IBM, por exemplo, atravessaram diferentes ciclos tecnológicos, adaptando seus modelos de negócio, não sem sofrerem profundas mudanças estruturais.
Governança – O paradoxo corporativo
Essa transformação tecnológica não se limita aos modelos de negócio. Ela também pressiona as estruturas tradicionais de governança das empresas listadas.
Companhias abertas operam em estruturas de governança complexas, com conselhos amplos, comitês especializados e exigências regulatórias cada vez mais sofisticadas. Em muitas jurisdições, enfrentam ainda custos crescentes de compliance, relatórios extensos e maior exposição ao ativismo de acionistas.
Esses mecanismos são importantes para proteger os investidores e garantir transparência. Ao mesmo tempo, reduzem a agilidade das empresas em ambientes altamente competitivos. Some-se a isso a composição arcaica dos conselhos de administração, com muitos conselheiros e perfis profissionais muito variados.
Empresas fechadas, em contraste, conseguem tomar decisões estratégicas com maior rapidez e os administradores são normalmente mais familiarizados com o dia a dia do negócio.
Aqui está o paradoxo central: As empresas listadas em bolsa são as mais bem financiadas pela economia, mas também as mais lentas para mudar. Governança complexa, estruturas hierárquicas, regulação, compliance e cultura corporativa tornam profundas transformações extremamente difíceis de implementar.
E na era da inteligência artificial e do rápido desenvolvimento tecnológico, a velocidade se tornou o principal ativo econômico.
A nova arquitetura do financiamento corporativo
A transformação tecnológica explica parte desse movimento nas bolsas, mas não é o único fator. A própria forma de financiamento das empresas também está mudando.
Historicamente, o mercado acionário cumpria duas funções centrais: financiar expansão e oferecer liquidez aos investidores. Hoje, essas funções também começam a aparecer fora das bolsas.
O crescimento do crédito privado ilustra essa mudança. Estimativas indicam que o mercado global já ultrapassa US$ 1,5 trilhões em ativos, segundo dados compilados por Preqin e PitchBook.
Gestores globais como Blackstone, Apollo e Ares passaram a gerir grandes fundos dedicados ao financiamento direto de empresas. O SoftBank Vision Fund, por exemplo, mobilizou mais de US$ 100 bilhões para investir em empresas de tecnologia em estágio avançado.
Empresas como Uber, Airbnb e Palantir cresceram por anos, financiadas por capital privado, antes de recorrerem ao mercado público. Em 2013, a Dell realizou uma das maiores operações de fechamento de capital da história para reorganizar sua estratégia fora da pressão do mercado acionário.
Em 2022, a empresa X, antiga Twitter, foi adquirida em uma operação de aproximadamente US$ 44 bilhões e deixou de ser listada em bolsa. Desde então passou a operar como empresa privada. E já que estamos falando de Elon Musk, um caso ainda mais emblemático mostra até que ponto essa transformação pode chegar. A SpaceX tornou-se uma das empresas privadas mais valiosas do mundo, com avaliações superiores a US$ 150 bilhões, sem jamais ter recorrido ao mercado acionário. Financiada por grandes fundos de capital privado e por investidores institucionais, a empresa demonstra que projetos industriais altamente intensivos em capital podem ser financiados fora das bolsas, algo impensável há alguns anos.
Os casos acima ilustram uma tendência relevante: empresas de grande impacto econômico e tecnológico podem continuar operando até se transformar profundamente, sem depender da disciplina e das exigências do mercado de capitais aberto.
Os novos tempos de um novo capital
“Deixar de existir na bolsa” não implica, necessariamente, desaparecer. Poderá significar apenas migrar para outras formas de financiamento. Mas, em muitos casos, significará perder relevância relativa no mercado acionário, ou algo mais brutal: irrelevância econômica.
A transformação das empresas nas bolsas resulta da convergência de três forças: aceleração tecnológica, maior complexidade na governança das empresas listadas e o surgimento de novas formas de financiamento fora dos mercados públicos. Uma coisa é certa: em 10 anos, o mapa das empresas nas bolsas será outro.
