Sem Lula e sem Flávio, a disputa presidencial de 2030 começa a ganhar forma.
A eleição de 2026 terminou, mas talvez uma de suas consequências mais importantes esteja no que acontecerá em 2030. Pela primeira vez em muitos anos, o Brasil poderá chegar a uma disputa presidencial sem Lula ou um integrante da família Bolsonaro como protagonista. Isso não significa o desaparecimento das forças políticas que representam. Significa que ambas terão de enfrentar uma questão adiada por muito tempo: como preservar sua relevância política sem depender exclusivamente de seus principais líderes?
A disputa de 2026 foi marcada pela polarização e pela elevada rejeição aos candidatos. O próximo ciclo abre espaço para novas lideranças e para a apresentação de projetos que ultrapassem a identidade de seus atuais protagonistas.

Dois finalistas fora do tabuleiro
Lula não poderá disputar um terceiro mandato consecutivo. Sua ausência das urnas, entretanto, não significará necessariamente seu afastamento da política. Continuará podendo exercer influência sobre o PT, a coalizão governista e a escolha de seu sucessor.
A situação de Flávio Bolsonaro é diferente. Os acontecimentos posteriores à derrota, incluindo sua saída do país apesar das restrições judiciais e as alegações infundadas de fraude eleitoral, acrescentaram dificuldades à continuidade de sua trajetória política.
A história brasileira recomenda cautela diante de previsões definitivas sobre o destino de qualquer liderança. O próprio Lula deixou a prisão em 2019 para retornar à Presidência quatro anos depois.
A diferença entre os dois casos revela uma característica importante da sucessão. Lula poderá participar da escolha de seu herdeiro político a partir da Presidência. No campo bolsonarista, a definição de uma nova liderança dependerá também da reorganização das relações entre a família, os partidos e o eleitorado conservador. A ausência dos candidatos não determina, portanto, o desaparecimento das identidades políticas que ajudaram a consolidar.
A direita e o dilema de Tarcísio
Na direita, Tarcísio de Freitas aparece entre os possíveis protagonistas da sucessão. Reeleito governador de São Paulo, inicia um novo mandato mantendo a projeção nacional conquistada nos últimos anos.
Sua trajetória, entretanto, apresenta uma contradição. Tarcísio construiu parte importante de sua identidade política pela proximidade com o bolsonarismo, ao mesmo tempo em que procura apresentar uma imagem de gestor pragmático e moderado. Seus posicionamentos diante de episódios associados à radicalização política suscitaram questionamentos sobre os limites dessa moderação.
Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, em Como as Democracias Morrem, examinam o papel das lideranças tradicionais diante de movimentos autoritários. A reflexão oferece uma referência para compreender as escolhas que poderão se apresentar ao governador.
Uma eventual candidatura presidencial exigirá conciliar segmentos conservadores identificados com Bolsonaro e eleitores que esperam posições mais moderadas. A questão será definir uma identidade própria sem que a tentativa de acomodar interesses distintos produza ambiguidades permanentes.
Outras lideranças poderão surgir ao longo dos próximos quatro anos. A sucessão na direita dependerá também da maneira como o bolsonarismo se reorganizará diante da possibilidade de não contar com um integrante da família na disputa presidencial.
A esquerda depois de Lula
A sucessão governista apresenta desafios diferentes. O PT possui uma estrutura partidária consolidada e continuará contando com a influência política de Lula. Mas nenhuma dessas condições elimina a dificuldade de construir uma candidatura presidencial sem sua presença nas urnas.
Fernando Haddad já não ocupa sozinho o espaço de possível sucessor. Camilo Santana, Rafael Fonteles e João Campos integram um conjunto de lideranças com trajetórias distintas.
Camilo reúne experiência administrativa e proximidade política com Lula. Fonteles apresenta um perfil associado à gestão e a posições econômicas mais pragmáticas. João Campos representa uma geração mais jovem, embora sua recente derrota em Pernambuco acrescente dificuldades à construção de uma candidatura nacional. Nenhum deles dispõe da projeção acumulada por Lula ao longo de décadas.
A sucessão exigirá mais do que a escolha de alguém capaz de representar a continuidade. Será necessário definir quais aspectos do projeto governista serão preservados, quais poderão ser reformulados e como construir uma identidade política própria.
O lulismo combinou liderança pessoal, identificação popular e uma coalizão que ultrapassou os limites tradicionais do PT. Sua continuidade sem Lula na disputa dependerá da capacidade de reunir esses elementos em torno de outra liderança.
Da rejeição ao projeto
A eleição de 2026 foi marcada por índices elevados de rejeição aos dois finalistas. O voto contrário ao adversário teve importância na disputa, ao lado da identificação dos eleitores com seus próprios candidatos.
Os cientistas políticos Alan Abramowitz e Steven Webster estudaram esse fenômeno sob o conceito de partidarismo negativo, no qual a aversão ao campo adversário influencia o comportamento eleitoral.
A polarização brasileira contém elementos dessa dinâmica. As identidades políticas passaram a ser organizadas não apenas pela adesão a determinadas ideias, mas também pela oposição ao grupo concorrente.
A substituição dos protagonistas não elimina automaticamente essa estrutura. É possível que o eleitor continue rejeitando o PT ou o bolsonarismo, independentemente de quem represente essas correntes. Novos candidatos também poderão reproduzir discursos e antagonismos semelhantes aos de seus antecessores.
Por outro lado, a renovação das lideranças poderá modificar a natureza do debate eleitoral. Candidatos com trajetórias menos conhecidas nacionalmente terão de apresentar suas ideias, explicar suas prioridades e construir relações próprias com o eleitorado.
Abre-se, assim, a possibilidade de ampliar a discussão sobre crescimento econômico, produtividade, educação, segurança pública, desigualdade e modernização do Estado, temas frequentemente subordinados ao conflito entre os candidatos.
Uma eleição orientada por projetos dependerá menos da simples troca de nomes e mais da capacidade de construir programas políticos consistentes.
Quatro anos para construir um projeto
A eleição de 2030 começou antes mesmo da posse do presidente reeleito. Governo e oposição terão quatro anos para preparar lideranças, organizar alianças e formular propostas. Nesse período, crises, mudanças econômicas e novos personagens poderão alterar profundamente o cenário político. Antecipar o resultado seria um exercício de futurologia.
A simples renovação dos candidatos não assegura a renovação da política. O Brasil poderá chegar a 2030 com outros personagens e os mesmos conflitos. A oportunidade estará na capacidade dos partidos de substituir a dependência de lideranças individuais pela construção de projetos nacionais.
Em 2026, o Brasil escolheu contra quem votar. Em 2030, terá de decidir a favor do quê.
