O torneio mais assistido do planeta começa em meio a estádios vazios, fronteiras fechadas e promessas traídas. Mas nenhuma outra Copa revelou tanto sobre o mundo em que vivemos.

A Copa do Mundo é, antes de tudo, um espelho. Não reflete o que gostaríamos de ver, mas o que somos. A cada quatro anos, ela devolve ao mundo sua própria imagem, com todas as suas grandezas e todas as suas fraturas. E o espelho desta edição de 2026, disputada nos Estados Unidos, no México e no Canadá, não devolve uma imagem confortável.

Na semana passada, examinamos aqui o poder singular desse torneio: sua capacidade de forjar comunidade onde o mundo moderno fabrica isolamento, de suspender por noventa minutos o excesso de individualismo que define nossa época. Mas o futebol, como Nelson Rodrigues nos ensinou, sempre foi sobre o que acontece além das quatro linhas. E o que acontece fora delas, nesta edição, é revelador o suficiente para exigir um segundo olhar.

Estádios com fileiras vazias, protestos nas ruas do México, controles de fronteira que expuseram árbitros e delegações, um formato expandido que divide especialistas entre a euforia da inclusão e a preocupação com a qualidade esportiva. A Copa de 2026 chegou carregada de contradições. Mas talvez seja exatamente por isso que ela nunca foi tão fiel ao momento histórico que vivemos. Ela não criou essas tensões. Ela apenas as reflete.

Estádios Cheios de Silêncio

O sinal veio cedo. Na partida entre Coreia do Sul e Tchéquia, realizada no Estádio Akron, em Guadalajara, fileiras inteiras permaneceram vazias durante toda a noite. A FIFA anunciou público de 44.985 espectadores em uma arena com capacidade para 46 mil. Os números não mentem, mas tampouco explicam a imagem: um estádio quase lotado no papel, visivelmente vazio nos olhos.

A razão é conhecida. Os preços dos ingressos para esta Copa são, segundo a organização de torcedores Football Supporters Europe, até cinco vezes maiores do que os praticados na edição do Catar em 2022. Para a partida de abertura no Azteca, torcedores relataram ter pago três mil dólares ou mais por um ingresso. A final, no MetLife Stadium, chega a custar entre 3.600 e 7.400 euros. Diante das críticas, a FIFA anunciou uma categoria de ingressos a 60 dólares para todos os jogos. Uma concessão que aponta na direção certa, mas que ainda está longe de resolver a contradição central: o esporte mais popular do planeta, aquele que nasceu nas ruas de terra batida e nas periferias do mundo, expulsou das arquibancadas os mesmos povos que o inventaram.

O modelo precisa ser revisto. A transmissão universal garante que bilhões possam acompanhar cada lance de onde estiverem. Mas a arquibancada tem um valor que a tela não substitui: ela é o lugar onde o futebol se faz coletivo de forma visceral. A Copa exclui dos estádios, mas inclui pelo sinal. Separa pelo bolso, mas ainda reúne pelo grito. Esse equilíbrio, por ora, pende demais para um lado.

A Fronteira e o Buquê de Flores

Antes mesmo de a bola rolar, os controles de entrada nos Estados Unidos geraram episódios que ocuparam as manchetes internacionais. Omar Abdulkadir Artan, árbitro somaliano considerado um dos melhores de seu continente, foi impedido de entrar no país e não poderá apitar nenhum jogo do torneio. Aymen Hussein, jogador do Iraque, foi retido por sete horas em interrogatório na chegada. A seleção do Irã recebeu restrições sobre sua movimentação durante os jogos disputados em território americano.

Aqui, porém, é necessário um contraponto que o debate público tem evitado. Desde os ataques de 2001, os Estados Unidos endureceram sistematicamente seus controles de fronteira, e esse endurecimento não é um capricho deste ou daquele governo: é uma resposta estrutural de um país que se compreende em estado permanente de ameaça. A questão relevante não é se um país tem o direito de proteger suas fronteiras durante um evento que receberá dezenas de milhões de visitantes. Tem, e seria ingênuo negar isso. A questão que merece escrutínio é outra: os controles estão sendo aplicados de forma uniforme, ou de forma seletiva? Proteger é legítimo. Usar a Copa como palco para retaliar países com os quais se está em conflito diplomático é outra coisa inteiramente.

É aqui que a história oferece um contraponto poderoso. Em 1998, durante a Copa da França, Irã e Estados Unidos se encontraram em campo num momento de tensão diplomática aguda entre os dois países. Antes do apito inicial, os jogadores iranianos entraram no gramado carregando buquês de flores brancos e os entregaram, um a um, a cada jogador americano. Foi um gesto que nenhuma cúpula diplomática havia sido capaz de produzir. O futebol fez em noventa minutos o que os governos não fizeram em anos.

Esse episódio não resolve as tensões de 2026. Mas lembra do que esse torneio é capaz quando funciona em sua melhor versão. A bola não respeita visto. E talvez seja exatamente por isso que ela incomoda tanto quem governa com muros.

Por isso mesmo, seria extraordinário que o sorteio desta Copa colocasse Estados Unidos e Irã frente a frente numa mesma chave. O espírito da Copa é, em sua essência, o da união entre povos que a política insiste em separar. Um confronto entre as duas seleções, neste momento, pararia o mundo. Não pelo talento dos jogadores em campo, mas pela pergunta que o próprio jogo responderia diante de bilhões de pessoas: é possível se encontrar quando tudo parece impossível? Em 1998, a resposta veio num buquê de flores. Em 2026, ela poderia vir num simples aperto de mão no centro do gramado. Às vezes, noventa minutos de futebol dizem o que anos de diplomacia não conseguiram formular.

O México entre a Festa e o Protesto

A abertura no Estádio Azteca foi, à sua maneira, perfeita. Uma arena histórica, o terceiro Mundial que recebe, um país que respira futebol. Mas a poucos quilômetros do estádio, professores de todo o México marchavam em direção às grades, protestando por melhores salários e contra uma reforma previdenciária. Moradores da colônia de Santa Úrsula, onde o Azteca está situado, alegavam que as obras da Copa haviam comprometido o fornecimento de água na região.

A Copa prometeu desenvolvimento e legado. O que parte das comunidades ao redor do Azteca recebeu foi especulação imobiliária e ingressos que custam mais do que um salário mensal da maioria dos mexicanos. O torneio chegou ao México. O México, em partes significativas, ficou do lado de fora. É o espelho novamente, implacável: a mesma Copa que celebra a nação ignora boa parte dela.

48 Seleções: o Sacrifício que Vale a Pena

Há uma decisão estrutural que marca esta Copa de forma permanente e sobre a qual o debate, até agora, tem sido mais emocional do que analítico: a ampliação para 48 seleções e 104 partidas.

A crítica esportiva é real. Grupos desequilibrados, jogos sem tensão competitiva nas primeiras rodadas, a possibilidade de que empates combinados sejam suficientes para avançar. Para uma parte do mundo, especialmente a Europa, a Copa ideal seria menor, mais densa, mais disputada desde o início. Essa visão tem mérito esportivo. Mas carrega também uma certa arrogância continental: a de que o futebol de alto nível pertence a um clube fechado de nações, e que a Copa deveria refletir essa hierarquia.

A expansão tem uma dimensão que a crítica europeia tende a ignorar. Quando um jogador da Somália entra em campo e se depara com Haaland, quando uma seleção que jamais disputou um Mundial enfrenta Cristiano Ronaldo ou Mbappé, algo acontece que nenhuma outra instituição internacional é capaz de produzir. A ONU debate resoluções. A OMC negocia tarifas. A Copa coloca corpos em campo, lado a lado, sob as mesmas regras, na frente de bilhões de pessoas. Esse nível de visibilidade e humanização mútua, nenhum órgão multilateral consegue mais entregar.

O sacrifício da qualidade nas primeiras rodadas é real. Mas a simbologia do que aquele encontro representa, e de que outras instituições simplesmente não estão mais conseguindo proporcionar, talvez valha o preço. A FIFA, ao que tudo indica, não se contenta: já discute nos bastidores uma expansão para até 66 seleções na Copa de 2030. Há política por trás dessa decisão, como há em qualquer decisão de uma entidade governada por votos de federações menores. Mas o efeito humanitário do acesso ao palco maior do esporte mundial é, em si mesmo, um argumento que merece ser levado a sério.

O Desafio Real: Onde a Copa Acontece

Se a discussão sobre o número de seleções é complexa, há uma questão ainda mais fundamental que esta Copa de 2026 coloca em evidência, e sobre a qual o debate público ainda é surpreendentemente tímido: a escolha de onde o torneio acontece.

Os Estados Unidos desta edição têm uma virtude que raramente é reconhecida: a infraestrutura já existia. Os estádios foram adaptados, os gramados reformados, o transporte ajustado. Não haverá o legado dos elefantes brancos, aquelas estruturas bilionárias erguidas artificialmente em países sem tradição do esporte, que depois da Copa apodrecem sem uso. O Catar construiu um país para receber uma Copa. A conta humana desse projeto está documentada nos milhares de trabalhadores migrantes, em sua maioria do Nepal, da Índia e de Bangladesh, mortos ou submetidos a condições análogas à escravidão nos canteiros de obras. Esse legado não será apagado por nenhum gol bonito.

A Copa de 2030, co-organizada por Portugal, Espanha e Marrocos, parece uma escolha sensata: infraestrutura existente, contexto político estável, nenhum sinal de conflito que ameace a realização do torneio. A de 2034, na Arábia Saudita, levanta questões que o mundo ainda não respondeu. Um país só, num Oriente Médio ainda em guerra, com Gaza, com o Líbano, com o Irã como pano de fundo permanente. Oito anos é um horizonte longo, mas não tanto assim. E a experiência do Catar não deixa margem para otimismo fácil sobre o que significa construir uma Copa do zero num país sem tradição esportiva de massa e com restrições severas a direitos fundamentais. O desafio não é mais realizar a Copa. É escolher onde.

A FIFA precisa compreender que a sede não é apenas um detalhe logístico. Ela é, em si mesma, uma declaração. Quando a escolha é percebida como meramente econômica, como um contrato entre a entidade e o petrodólar, o torneio perde algo que nenhuma cerimônia de abertura consegue restaurar: a credibilidade de que representa algo além do mercado.

O Espelho que Não Engana

E, no entanto, algo resiste a todas essas contradições. Algo que não cabe nas planilhas nem nos comunicados oficiais.

Nas zonas de torcedores da Cidade do México, onde o ingresso estava inacessível, multidões se reuniram diante dos telões para torcer pela seleção. Mario Martínez, torcedor de Tijuana que não conseguiu pagar o ingresso, chegou cedo com a namorada para garantir um bom lugar na fan fest. Em São Paulo, no Rio, em Lagos, em Dacar e em Seul, pessoas que jamais pisarão num estádio desta Copa vão parar o mundo por noventa minutos a cada partida de suas seleções.

A Copa do Mundo sobrevive a seus organizadores. Sobrevive às escolhas de sede questionáveis, aos preços abusivos e às barreiras políticas porque ela não pertence a nenhuma entidade. Ela pertence ao grito coletivo de quem para, por um instante, de viver atomizado e escolhe torcer junto. Como argumentou Johan Huizinga em Homo Ludens, o jogo é o elemento fundador da civilização: é jogando que o ser humano aprende a sublimar o conflito em disputa simbólica.

Repressão por um lado, festa por outro. Elitização por um lado, acessibilidade por outro. Guerras lá fora, futebol aqui dentro. A Copa de 2026 é o retrato fiel do mundo de 2026, com suas fraturas e sua tenacidade, com seus muros e com sua capacidade obstinada de continuar tentando se reunir.

Isso não absolve ninguém de nada. Não transforma em virtude o que é erro, nem em inclusão o que é elitização. Mas revela algo essencial: mesmo em um espelho partido, é possível reconhecer o próprio rosto. E talvez seja exatamente por isso que a Copa, a cada quatro anos, ainda importa.

Mais sobre 

Mundo

Veja mais

ComTexto no seu inbox. Leitura com contexto, toda semana.

Sem spam. Só conteúdo com propósito.
Perfeito. Em breve, você receberá o ComTexto no seu inbox.
Oops! Something went wrong while submitting the form.