Quase 30% dos brasileiros adultos não conseguem compreender o que leem. Essa é  uma sentença sobre o futuro do País. Existem os que não entendem por falta de acesso à educação, e os que não entendem porque aprenderam a ler apenas a linguagem das redes sociais. O problema é o mesmo. As origens, não.

O que acontece com uma democracia cujos cidadãos não conseguem compreender o que leem? O debate público no País orbita polarização, fake news, linchamento digital e erosão institucional. São diagnósticos legítimos. Mas raramente alguém aponta para a raiz de boa parte desses problemas: o Brasil não lê. E quando lê, com frequência não compreende.

A sexta edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, realizada pelo Instituto Pró-Livro em parceria com o Ministério da Cultura, revelou que apenas 47% dos brasileiros leram ao menos um livro nos três meses anteriores à pesquisa. Em 2007, esse percentual era de 55%. Dezessete anos depois, o país perdeu oito pontos percentuais de leitores. O número exclui mais da metade da população da categoria de leitores.

Mas a queda no hábito de leitura é apenas a superfície do problema. O dado mais perturbador vem do Indicador de Alfabetismo Funcional, o Inaf, cuja edição de 2024 confirmou que 29% dos brasileiros entre 15 e 64 anos vivem na condição de analfabetismo funcional. Eles sabem ler e escrever palavras, mas não conseguem compreender textos minimamente complexos, interpretar informações em contexto ou aplicar o que leram em situações cotidianas. São quase 30 em cada 100 brasileiros adultos. Entre os jovens de 15 a 29 anos, o percentual cresceu. Em 2018, 14% dessa faixa etária era funcionalmente analfabeta. Em 2024, chegou a 16%. O problema está piorando justamente entre aqueles que deveriam ser o futuro produtivo e cívico do País.

Há ainda um fenômeno novo que a pesquisa Retratos da Leitura identificou: a falta de paciência para a leitura saltou de 18% em 2007 para 40% em 2024. Além de lerem menos, os brasileiros declaram cada vez mais não ter paciência para ler. A cultura da informação instantânea, dos vídeos curtos e do scroll infinito está reconfigurando a capacidade de atenção de uma geração inteira.

O lugar do Brasil no mundo que lê

O Programa Internacional de Avaliação de Estudantes, o Pisa, oferece um espelho desconfortável. Na edição de 2022, o Brasil ocupou a 53ª posição entre 81 países avaliados em leitura, com 410 pontos, abaixo de vizinhos como Chile, com 448 pontos, e Uruguai, com 430 pontos. Metade dos estudantes brasileiros de 15 anos apresentou desempenho abaixo do nível mínimo de leitura definido pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico, aquele considerado o piso indispensável para o exercício pleno da cidadania.

Os índices estão praticamente estagnados desde 2009. Ao longo de quinze anos e governos de diferentes matizes ideológicos, o Brasil gastou cada vez mais em educação e obteve resultados que não acompanharam o investimento. Em 2009, o governo federal investiu R$ 18 bilhões na educação básica. Em 2018, esse valor havia saltado para R$ 39 bilhões, um aumento de 116%. Mas o desempenho dos alunos no Pisa, no mesmo período, praticamente não se moveu. 

O professor e pesquisador Ernesto Faria, da Fundação Roberto Marinho, sintetizou o diagnóstico com precisão: alunos de 15 e 16 anos estão tendo o aprendizado esperado para alunos de 11 e 12 anos. Quatro anos de atraso na formação de uma geração inteira. Essa constatação é uma hipoteca sobre o futuro.

O preço invisível que todos pagam

O analfabetismo funcional raramente aparece nas análises econômicas com o peso que merece. Prefere-se falar de juros, câmbio, reforma tributária e produtividade. Mas os dados do Inaf 2024 apontam para um dado que os economistas precisam incorporar: 27% dos trabalhadores brasileiros são analfabetos funcionais. Mais de um quarto da força de trabalho do País não consegue compreender plenamente instruções, contratos, manuais técnicos ou comunicações internas de média complexidade.

O economista Amartya Sen, ao desenvolver o conceito de capacidades humanas, argumentou que o desenvolvimento não se mede pelo crescimento do PIB, mas pela liberdade real que as pessoas têm de conduzir suas próprias vidas. Um trabalhador que não compreende o que lê fica vulnerável a contratos abusivos que não consegue interpretar. Vulnerável a informações falsas que não tem ferramentas para refutar. Vulnerável a posições de poder que jamais alcançará porque a escada da ascensão foi construída em uma língua que ele tecnicamente conhece, mas não domina.

O estudo do IMD World Competitiveness Center situa o Brasil na 63ª posição em adequação das habilidades linguísticas dos trabalhadores às necessidades das empresas. De que adianta então discutir a competitividade industrial e a inserção nas cadeias globais de valor se mais de um quarto de sua força de trabalho não lê com compreensão? 

Democracia sem leitores é democracia de fachada

A crise da informação e a crise da leitura são partes do mesmo fenômeno. Não é possível construir uma esfera pública saudável com cidadãos que não conseguem distinguir um argumento de uma afirmação, uma fonte verificada de um boato, uma análise de uma opinião. O filósofo Jürgen Habermas dedicou décadas a demonstrar que a democracia deliberativa exige participantes capazes de trocar razões que precisam ser compreendidas e avaliadas.

O Brasil discute fake news como se fossem um problema de plataformas digitais. Discute polarização como se fossem um problema de radicalização política. Discute linchamento digital como se fossem um problema de comportamento online. Porém, um cidadão que não lê com compreensão é manipulável, suscetível a narrativas simplificadas e a lideranças que se focam apenas na emoção. A crise da leitura alimenta a ignorância individual ao mesmo tempo que consolida a instabilidade democrática coletiva.

Não por acaso, os países com as democracias mais consolidadas e os mercados mais competitivos são, em geral, os países com os maiores índices de leitura e compreensão textual. Finlândia, Coreia do Sul, Japão e Canadá chegaram a esse patamar por escolhas culturais e políticas sustentadas ao longo de décadas, que trataram a leitura como infraestrutura de desenvolvimento e condição de cidadania.

A paciência que foi embora

O dado da falta de paciência para a leitura precisa ser lido com cuidado, porque aponta para uma transformação cognitiva em curso que vai além de preguiça ou desinteresse. As plataformas digitais foram projetadas para maximizar o tempo de tela por meio de estímulos rápidos com recompensas imediatas e conteúdo que se encerra antes que a atenção possa se fixar. O resultado é uma geração que consome mais informação do que qualquer geração anterior, mas que processa essa informação em fragmentos cada vez menores.

A leitura longa exige o oposto do que as redes sociais treinam. Exige paciência, concentração, tolerância à ambiguidade e capacidade de suspender o julgamento até o fim de um argumento. São habilidades que precisam ser cultivadas. E se não forem desde cedo, atrofiam. O salto de 18% para 40% de pessoas sem paciência para ler em menos de duas décadas documenta uma transformação profunda na arquitetura da atenção humana, com consequências que vão muito além do mercado editorial.

É preciso, porém, resistir à armadilha de imaginar que o problema da leitura pertence apenas às classes populares. A juventude das classes média e alta brasileira pode ter acesso a livros, a escolas particulares e a viagens internacionais, e ainda assim habitar o mesmo deserto de compreensão profunda, com a diferença de que se disfarça melhor. Tecnicamente capaz de ler contratos e e-mails, ela escapa dos critérios do Inaf. Mas se informa exclusivamente por tweets, se atualiza por headlines que nunca clica, forma opiniões a partir de vídeos de noventa segundos e chama isso de estar por dentro do mundo. 

É uma variante sofisticada do mesmo problema: a substituição da leitura densa pelo consumo de fragmentos, com a diferença de que essa camada da população tem capital social suficiente para que ninguém questione a superficialidade do que sabe. O filho da elite que não leu um livro completo em dois anos e o trabalhador periférico que não consegue interpretar uma conta de água estão, a distâncias diferentes, no mesmo continuum de um País que perdeu o hábito de pensar por extenso.

O que está em jogo

O Brasil tem propostas tramitando no Congresso para fortalecer bibliotecas públicas e criar programas de vale-livro para alunos da rede pública. São iniciativas legítimas e bem-vindas. Mas nenhuma política pontual será suficiente enquanto a leitura não for tratada como um bem público essencial, comparável ao saneamento básico ou à vacinação. Um país que não lê com compreensão é menos produtivo, menos justo e menos capaz de se autogovernar com qualidade.

A professora Carla Chiamareli, gerente do Observatório da Fundação Itaú, afirmou que os números do Inaf 2024 são um indicativo de que o poder público, nas esferas federal, estadual e municipal, deve unir esforços para fortalecer a educação. A frase é correta, mas insuficiente. Unir esforços governamentais é necessário, mas não é suficiente enquanto a cultura não mudar. Enquanto a leitura for vista como obrigação escolar e não como prática cotidiana. Enquanto a casa não tiver livros. Enquanto o tempo de leitura competir com horas de scroll e perder sistematicamente.

A solução não virá de um único governo, de uma única lei ou de uma única campanha de incentivo à leitura. Virá de uma decisão coletiva, cultural e política de tratar o leitor como o fundamento de tudo o que se pretende construir. Democracia. Economia. Justiça. Cidadania. Nenhuma dessas palavras significa muito nas mãos de quem não consegue ler o que elas implicam.

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