Nota ao leitor - Este é o segundo artigo de uma trilogia sobre o poder e as instituições no Brasil. No texto anterior, discutimos como a política é, por natureza, um jogo duro e realista. Caso ainda não tenha lido, convido-o a acessar a Parte I antes de prosseguir. Neste segundo movimento, demonstraremos que reconhecer esse realismo não implica aceitar a exploração ilimitada das regras constitucionais, sob o risco de uma erosão democrática silenciosa.

Se a primeira parte desta análise demonstrou que a política é inevitavelmente jogo duro, é imperativo estabelecer o limite: existe uma diferença decisiva entre estratégia política intensa e a instrumentalização constitucional cumulativa. A literatura contemporânea sobre o colapso democrático é clara ao apontar que as democracias modernas não morrem apenas por golpes militares, mas degradam-se por dentro. Como demonstraram Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, a erosão ocorre quando líderes eleitos utilizam mecanismos legais para ampliar seu poder gradualmente, transformando as instituições em ferramentas de exclusão de adversários.

Não há ruptura visível, mas sim uma reinterpretação contínua das normas. O fenômeno é global e possui ecos nítidos na América Latina, assemelhando-se ao uso extremo de prerrogativas executivas observado nos Estados Unidos e às reformas judiciais na Hungria e na Polônia, conduzidas sob a aparência de legalidade formal. Em todos os casos, a justificativa é a mesma: “é constitucional”. No Brasil, a Constituição de 1988 foi desenhada com uma arquitetura que ampliou o controle judicial, expandiu direitos e fortaleceu mecanismos de fiscalização — uma estrutura que se provou virtuosa e essencial no contexto da redemocratização. Contudo, essa mesma elasticidade, quando explorada de maneira sistemática como ferramenta de combate político, gera efeitos colaterais graves.

Os Sintomas do Desgaste Institucional

A exploração sistemática dos limites constitucionais faz emergir três efeitos principais que comprometem a saúde do regime. O primeiro é o deslocamento informal de poder, onde os centros decisórios migram sem qualquer alteração explícita do texto constitucional, mas por meio de manobras regimentais e interpretativas. O segundo reside na criação de precedentes acumulativos: cada inovação institucional força a barra para legitimar a próxima, criando uma espiral onde o que era exceção torna-se regra. O terceiro é a erosão da confiança, onde as decisões dos tribunais e do parlamento passam a ser interpretadas apenas como jogadas estratégicas, despindo as instituições de sua autoridade moral.

Nesse cenário, a judicialização excessiva transforma qualquer derrota política em uma batalha jurídica sem fim, retirando do voto popular a palavra final. O orçamento deixa de ser uma peça de planejamento para tornar-se um instrumento de rearranjo estrutural de poder, e as emendas constitucionais passam a ser ferramentas ordinárias de acomodação política momentânea. Isoladamente, nenhum desses elementos rompe a ordem, mas sua soma altera a própria natureza do regime democrático. Democracias sólidas dependem de um elemento invisível, mas vital: a autocontenção dos atores. Quando se deixa de exercê-la, a função moderadora da Constituição enfraquece. O jogo duro constitucional não explode o regime de imediato; ele o desgasta silenciosamente, tornando-o vulnerável a choques externos e polarizações extremas. O risco real não reside na vitória de um poder específico, mas no fato de todos os atores passarem a operar permanentemente no limite extremo da regra.

Mais sobre 

Política

Veja mais

ComTexto no seu inbox. Leitura com contexto, toda semana.

Sem spam. Só conteúdo com propósito.
Perfeito. Em breve, você receberá o ComTexto no seu inbox.
Oops! Something went wrong while submitting the form.