“Quando um não quer, dois não brigam” dito popular

Lula foi desastroso no seu comentário ao colocar na mesma frase Hitler, o povo judeu e comparar com o conflito na Faixa de Gaza. Cometeu um grave erro diplomático. Aliás, quando a diplomacia, que existe para evitar ou estancar conflitos, é o causador de uma crise, significa que está tudo errado.

Aqui vai um aparte: por que será que toda vez que há um debate acalorado sobre determinado tema, aparecem as comparações com Hitler, holocausto e os nazistas? Nada se compara aos horrores da guerra e ao flagelo de suas vítimas. Isto é tão comum que o filósofo político americano Leo Strauss, em 1950, cunhou a expressão “Reductio ad Hitlerum”, que descreve a falácia lógica de comparar algo a Hitler ou ao nazismo para desacreditar o argumento contrário. O advogado americano Mike Godwin criou a máxima, batizada de “Lei de Godwin”, segundo a qual “à medida que uma discussão online se alonga, a probabilidade de surgir uma comparação envolvendo Hitler ou os nazistas tende a 100%”. Para mim, sempre que esta exagerada comparação aparece, tendo a desconfiar dos argumentos (ou falta de) originais do prolator da comparação.

Voltando à crise diplomática, a resposta do governo israelense foi imediata, mas desproporcional. Ao tentar tirar proveito da mancada de Lula para melhorar sua posição política interna e externa, o premier israelense dá o troco (mais uma vez em escala ciclópica) e devolve o erro diplomático. A crise entre os governantes está instaurada.

A comunidade internacional desprezou este embate diplomático e sequer mencionou o episódio, demonstrando a desnecessidade e pouca relevância desta troca de farpas.

Brasil e Israel estão em posições bem distintas na comunidade internacional. Enquanto o Brasil vem tentando resgatar sua importância, usando de esteio a agenda ambiental, Israel vive crises internas e em constante estado de alerta e tensão militar. Foi alvo de um ataque terrorista sem precedentes, mas se excedeu na reação, dizimando dezenas de milhares de cidadãos civis palestinos que nada têm a ver com os atos terroristas. A comunidade internacional já reconhece estes excessos do governo israelense e cobra medidas efetivas para acabar com este horror.

Na agenda interna, a situação também é bem diferente. A aprovação do governo Lula vem crescendo aos poucos em função da agenda econômica. O primeiro-ministro israelense, que já vivia problemas internos antes dos ataques terroristas de outubro, continua sendo muito criticado e deve terminar esta crise em total descrédito.

Assim, Lula gerou uma agenda negativa desnecessária. Poderia criticar os excessos da guerra sem tocar na ferida do nazismo, fato tão sensível e caro à comunidade judaica. Foi um golpe abaixo da linha da cintura. O primeiro-ministro de Israel devolveu o golpe baixo ao humilhar o embaixador brasileiro em público. É consenso na diplomacia que as críticas se dão em portas fechadas.

Resta saber se nesta luta de boxe da diplomacia o governo brasileiro, que deu o primeiro gancho, vai devolver o cruzado de direita que recebeu, ou vai para o clinch aguardando o tempo passar para acalmar os ânimos exaltados. A única certeza é que neste combate de pugilismo diplomático não há vencedores nem empate técnico. Todos perdem.

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