Fala-se hoje, com uma solenidade que beira o litúrgico, sobre o suposto “fim da ordem internacional”. Diplomatas, analistas e formadores de opinião lamentam a erosão de um sistema que teria sido construído após a Segunda Guerra Mundial, fundamentado em regras claras, cooperação multilateral e um respeito mútuo quase sagrado entre os Estados. No entanto, essa narrativa, repetida à exaustão em fóruns globais, não resiste a um exame honesto da história nem à crueza dos fatos recentes. O que testemunhamos não é o colapso de uma ordem estabelecida, mas sim o de uma fantasia coletiva.
A chamada ordem liberal internacional jamais foi universal, neutra ou efetivamente vinculante para as potências que a criaram. Desde a sua origem, esse sistema serviu como um arranjo funcional aos vencedores da guerra revestido por uma linguagem jurídica e moral para legitimar relações de poder que são, em sua essência, profundamente assimétricas. Como bem advertia Hans Morgenthau, o direito internacional jamais teve a força necessária para substituir a política de poder; no máximo, serviu para organizar sua aparência e torná-la palatável ao debate público.

Historicamente, os Estados Unidos nunca se comportaram como um ator verdadeiramente constrangido pelas normas multilaterais quando seus interesses estratégicos estavam em jogo. Episódios como o Vietnã, o Iraque, o Afeganistão, a Síria e o Kuwait não devem ser lidos como "desvios de rota" ou erros pontuais, mas como a expressão recorrente de uma estratégia de poder clara. O Conselho de Segurança da ONU, frequentemente exaltado como o pilar dessa ordem, sempre foi respeitado apenas quando suas resoluções confirmavam decisões já tomadas em Washington. Quando o organismo se tornava um obstáculo, era simplesmente ignorado, revelando que a exceção, na verdade, sempre foi o padrão.
O Retorno ao Realismo e a Geopolítica da Força
A Rússia, por sua vez, jamais se deu ao trabalho de fingir que jogava sob regras universais. A invasão da Ucrânia não representa uma ruptura com a ordem internacional, mas sim a sua confirmação mais brutal. Trata-se da continuidade lógica de uma política externa fundada em esferas de influência, de coerção e de busca por segurança estratégica. Como observa John Mearsheimer, as grandes potências não toleram ameaças em seus entornos imediatos, e nenhuma arquitetura institucional ou tratado de papel tem o poder de alterar esse dado elementar da política internacional.
Até mesmo a reação ocidental à guerra na Ucrânia, apresentada como uma defesa heroica da “ordem baseada em regras”, reforça a fragilidade do argumento jurídico. A aplicação de sanções seletivas, as exceções jurídicas de conveniência e a flexibilização oportuna de princípios demonstram que as normas continuam a valer apenas conforme a identidade e o poder de quem as viola. A norma, portanto, não possui caráter universal; é estritamente geopolítica. No Mar do Sul da China, esse padrão de força se repete com nitidez: o avanço gradual e metódico de Pequim, com a construção de ilhas artificiais e a militarização de rotas comerciais, ignora decisões de tribunais arbitrais internacionais sem sofrer consequências reais. Onde há poder suficiente, o direito torna-se opcional.
Neste cenário de realismo cru, a Europa surge como o retrato acabado da impotência estratégica disfarçada de virtude moral. O bloco construiu um mercado sofisticado, mas terceirizou sua segurança e fragmentou sua política externa, a ponto de perder qualquer capacidade autônoma de projeção de poder. Em tempos de calmaria, o discurso europeu é repleto de valores comuns; contudo, diante de crises reais — sejam elas energéticas, migratórias ou bélicas —, cada nação age isoladamente, o que prova que a unidade europeia é puramente circunstancial.
A Fragilidade dos Países Médios e o Caso Brasileiro
É nesse tabuleiro de gigantes que os países médios revelam suas limitações mais profundas. Incapazes de impor regras e relutantes em assumir os custos de uma liderança efetiva, essas nações oscilam perigosamente entre um soberanismo retórico e um multilateralismo defensivo. Exaltam a autonomia quando a economia vai bem, mas apelam desesperadamente à cooperação internacional no primeiro sinal de crise — não por convicção ideológica, mas por absoluta necessidade material.
O Brasil encaixa-se perfeitamente nesta moldura de hesitação. Sem o poder material necessário para moldar a ordem global e carente de coesão interna para liderar coalizões que de fato importem, o país frequentemente se refugia em uma diplomacia excessivamente declaratória. Nossa política externa é marcada por uma ambiguidade estratégica que mascara a ausência de prioridades claras, defendendo o multilateralismo menos como um instrumento de projeção de poder e mais como um escudo contra a nossa própria irrelevância no cenário mundial.
Como advertia Raymond Aron, as potências médias que se recusam a reconhecer a lógica implacável do poder acabam inevitavelmente subordinadas a ela. Em um mundo competitivo, quem não tem a coragem de definir e perseguir seus próprios interesses acaba apenas executando os interesses de outrem. Por trás dessa dinâmica de submissão está a ausência de lideranças mundiais capazes de articular projetos nacionais coerentes que sobrevivam à competição internacional.
Como lembrava Henry Kissinger, ordens internacionais sólidas só se sustentam quando refletem um equilíbrio de poder aceito pelos principais atores do sistema. O período pós-guerra nunca foi esse consenso equilibrado; foi, na verdade, uma longa era de hegemonia americana disfarçada sob o verniz de um universalismo normativo. Agora que essa hegemonia enfraquece, o verniz moral desfaz-se rapidamente. A "ordem baseada em regras" sempre operou de forma seletiva: direitos humanos e soberania foram aplicados como critérios móveis, acionados contra inimigos e relativizados em relação a aliados. Não se trata de uma hipocrisia ocasional, mas de uma coerência estratégica fundamental.
O momento atual não é uma ruptura histórica, mas sim uma revelação da verdade. A política internacional está apenas retornando à sua forma mais honesta: a competição aberta por poder, segurança e influência. O desconforto generalizado que sentimos decorre menos da brutalidade do mundo do que do colapso da narrativa reconfortante que permitia às elites fingirem que regras haviam substituído a força. Talvez o verdadeiro desafio contemporâneo não seja tentar salvar instituições anêmicas ou restaurar consensos fictícios, mas sim abandonar a infantilização do debate global. O mundo nunca foi governado por boas intenções — e insistir nessa fantasia apenas nos torna presas fáceis em um ambiente que exige, acima de tudo, realismo e preparação para enfrentar as coisas como elas são.
