Durante décadas acreditou-se que eleições eram essencialmente plebiscitos econômicos. Mas o Brasil e os Estados Unidos começam a sugerir que essa relação pode estar mudando.
Durante grande parte do século XX, a política democrática parecia obedecer a uma regra simples: quando a economia vai bem, governos são reeleitos; quando vai mal, são substituídos. A eleição funcionava quase como um referendo periódico sobre o desempenho econômico.
Essa ideia tornou-se um dos pilares da ciência política moderna. O conceito ficou conhecido como economic voting: o eleitor avaliaria governos principalmente a partir de indicadores econômicos como crescimento, inflação, renda e emprego.
A hipótese ganhou respaldo em diversos estudos clássicos. Desde Anthony Downs, em sua teoria econômica da democracia, até trabalhos posteriores de economistas políticos como Alberto Alesina, a premissa parecia sólida: a economia era o principal determinante eleitoral.
Mas a política contemporânea começa a sugerir que essa relação está se tornando menos evidente.
Dois países ilustram bem essa mudança: Brasil e Estados Unidos.
O Brasil e a economia que não domina a eleição
O Brasil apresenta hoje um quadro econômico que, em teoria, deveria favorecer qualquer governo incumbente.
Nos últimos anos, diversos indicadores evoluíram positivamente. Temos um crescimento econômico ao longo dos últimos anos. O desemprego apresenta queda. E outros fatores como a redução do desmatamento na Amazônia e a saída do país do chamado “mapa da fome” também recebem destaque nas manchetes.
Na lógica tradicional da ciência política, esse conjunto de indicadores deveria produzir dividendos eleitorais claros. No entanto, a economia não parece dominar o debate político brasileiro com a intensidade que a teoria sugeriria.
Parte da explicação está na polarização política que se consolidou no país na última década. Em ambientes altamente polarizados, dados econômicos deixam de funcionar como indicadores neutros e passam a ser interpretados pelas lentes ideológicas.
O mesmo indicador pode ser apresentado como evidência de sucesso por um grupo e como prova de fracasso por outro. Mas há também um elemento estrutural menos discutido.
O enigma dos juros brasileiros
A economia brasileira apresenta uma característica intrigante: sua aparente capacidade de resistir a taxas de juros extremamente elevadas. A taxa básica de juros permanece próxima de 15%. Em modelos macroeconômicos tradicionais, juros nesse nível deveriam produzir desaceleração significativa da atividade econômica.
A experiência internacional aponta exatamente nessa direção. No início dos anos 1980, políticas monetárias duras adotadas no Reino Unido durante o governo de Margaret Thatcher provocaram forte recessão industrial e aumento expressivo do desemprego.
Nos Estados Unidos, medidas semelhantes conduzidas por Paul Volcker levaram a economia a uma das contrações mais severas do pós-guerra. O Brasil, entretanto, parece reagir de maneira diferente. Mesmo com juros extremamente elevados, a economia continua crescendo moderadamente e o desemprego permanece relativamente baixo.
Isso levanta uma hipótese provocativa: talvez a política monetária tenha impacto menor sobre a economia brasileira do que os modelos convencionais supõem.
Alguns fatores podem explicar essa resiliência. Uma forte presença de crédito direcionado. O peso relevante do setor exportador de commodities. Os programas de transferência de renda. A expansão fiscal em determinados períodos e a baixa sensibilidade do investimento produtivo à taxa básica de juros.
Se essa interpretação estiver correta, a transmissão da política monetária no Brasil pode ser mais fraca do que sugere o debate econômico convencional.
A inflação percebida pelo eleitor
Mesmo quando os indicadores macroeconômicos são positivos, a percepção econômica do eleitor pode ser diferente. Eleições raramente são decididas por estatísticas agregadas. Elas são decididas pela experiência cotidiana das pessoas.
Nesse ponto, a inflação desempenha um papel central. Mesmo quando a inflação anual permanece dentro das metas consideradas aceitáveis pelos economistas, aumentos persistentes no preço de alimentos, aluguel ou serviços básicos podem gerar sensação de perda de poder de compra.
A economia comportamental mostra que eleitores reagem mais intensamente a perdas percebidas do que a ganhos agregados. Assim, um país pode apresentar crescimento econômico e bons indicadores de emprego e ainda assim produzir insatisfação eleitoral se o custo de vida percebido pelas famílias estiver pressionado. A economia medida pelos indicadores oficiais nem sempre coincide com a economia vivida no cotidiano.
Um exemplo evidente de uma ação que não gerou o impacto esperado devido à questão comportamental é a recente aprovação da isenção do IR para a população com renda de até R$ 5 mil mensais. Apesar de ser um grande movimento econômico, ela não gerou o impacto que se esperava nas pesquisas. Sobrou mais dinheiro para os contribuintes, mas, diante do nível geral de endividamento, este benefício acabou não sendo percebido. Ou seja, há mais dinheiro circulando na economia, mas o contribuinte não acusou este benefício.
Curiosamente, se o Governo tivesse mantido a tributação na fonte e a devolvido ao contribuinte, em vez de parar de descontar na fonte, talvez gerasse maior impacto percebido, pois o contribuinte receberia uma devolução robusta e não deixaria de ser descontado aos poucos. Ou seja, trata-se de uma questão de percepção, muito acima do benefício concreto diante do mesmo efeito econômico.
Os Estados Unidos e a política pós-econômica
Nos Estados Unidos, o fenômeno assume outra forma.
Nos últimos anos, a economia americana apresentou indicadores robustos. Dentre os quais, estão o crescimento consistente, o desemprego historicamente baixo e a forte geração de empregos. Mesmo assim, o ambiente político permanece profundamente dividido.
Isso ocorre porque novos fatores passaram a disputar espaço com a economia como determinantes eleitorais. Questões como imigração, identidade nacional, conflitos culturais e desigualdades regionais passaram a ocupar posição central no debate político. A política americana tornou-se menos uma disputa sobre políticas econômicas e mais um conflito entre visões distintas de sociedade.
Democracias em transformação
O que Brasil e Estados Unidos sugerem é que as democracias contemporâneas estão passando por uma transformação importante. Durante grande parte do século XX, eleições funcionavam como plebiscitos econômicos. Hoje, parecem cada vez mais plebiscitos culturais, identitários e simbólicos.
A economia continua relevante, mas já não possui o monopólio da explicação eleitoral. A polarização política, a fragmentação informacional e as disputas identitárias passaram a dividir esse espaço. Nesse novo ambiente, o eleitor decide não apenas com base em renda ou emprego, mas também com base em pertencimento político, valores e narrativas.
Uma velha intuição de Keynes
Essa tensão entre economia real e percepção política não é totalmente nova. Há quase um século, John Maynard Keynes observava que decisões econômicas frequentemente são guiadas por “animal spirits”, expectativas, emoções e narrativas que moldam o comportamento coletivo.
A política democrática talvez esteja experimentando algo semelhante. Mesmo quando os indicadores econômicos são positivos, a percepção social pode seguir outra direção.
Quando a economia deixa de decidir
Se uma taxa de juros próxima de 15% não desacelera de forma significativa a economia brasileira, uma pergunta inevitável emerge. Talvez estejamos superestimando o poder da política monetária e subestimando a força de outros vetores, fiscais, sociais e externos, que movem a economia do país. Se isso for verdade, uma consequência política aparece quase naturalmente.
A economia pode estar deixando de ser o principal fator das eleições não apenas por causa da polarização política, mas também porque os instrumentos clássicos de política econômica já não produzem efeitos tão claros quanto no passado.
Durante muito tempo acreditou-se que prosperidade gerava estabilidade política e que crises econômicas determinavam derrotas eleitorais. Mas as democracias contemporâneas parecem funcionar de maneira diferente. A economia continua moldando a vida material das sociedades. Mas as eleições são cada vez mais decididas por percepções, identidades e narrativas.
E quando política passa a ser guiada menos por indicadores e mais por interpretações, a previsibilidade desaparece. Inclusive para os economistas.
